Título: Viúva de Jango reivindica reparação
Autor: Paulo de Tarso Lyra
Fonte: Gazeta Mercantil, 01/10/2004, Legislação, p. A-9
A viúva do ex-presidente João Goulart, Maria Thereza Goulart, quer o reconhecimento de anistiado post mortem do marido e o direito a receber uma pensão como viúva de um ex-presidente da República. Ela entregou ontem o pedido pessoalmente ao ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, pouco após seus advogados protocolá-lo na Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. De acordo com o filho de Maria Thereza, João Vicente Goulart, mais do que a indenização financeira -estimada em R$ 100 mil pela anistia e uma pensão mensal de cerca de R$ 8,8 mil, equivalente ao salário de presidente da República- a intenção da família é reparar um erro histórico. "Estamos reivindicando algo que é nosso direito. Quando Jango morreu, em 1976, não teve direito sequer ao luto oficial em seu país", lembrou Vicente.
Jango foi deposto pelo golpe militar de 1964 e exilou-se no Uruguai, passando a morar posteriormente na Argentina, onde morreu, em 1976. Segundo João Vicente, o protocolo do pedido de anistia também pode ajudar vários outros pedidos anônimos feito por brasileiros que se consideraram perseguidos pelo regime militar e que não têm a mesma visibilidade de sua mãe, Maria Thereza. "Não queremos privilégios nem passar à frente de ninguém", garantiu. Para ele, é necessário recuperar a memória de Jango.
Citando o falecido Darcy Ribeiro, que foi ministro da Educação de Jango, João Vicente alegou que seu pai "caiu pelas suas virtudes, não pelos seus defeitos". Para o filho, até hoje Jango ainda não foi engolido pelas elites brasileiras. "Ele foi o primeiro a defender reforma agrária, o fortalecimento do mercado interno, a independência em relação ao capital internacional e a criação de uma lei de remessas de lucros para o exterior mais justa."
O pedido de anistia de Jango e de Maria Thereza espelha-se no êxito de Anita Leocádia Prestes, filha de Luis Carlos Prestes e Olga Benário, recentemente beneficiada com uma indenização de aproximadamente R$ 100 mil por combater o regime militar no Brasil.
"Fico triste quando vejo senadores, que se dizem democráticos, convivendo ao lado de outros, que foram biônicos, acusando o governo João Goulart de fraco. Meu pai lutou pela democracia e morreu sem pisar novamente em seu país".