Título: A revanche do boi sobre a soja
Autor: Lucia Kassai e Neila Baldi
Fonte: Gazeta Mercantil, 14/10/2004, Primeira Página, p. A-1

Aumento de 30% dos custos de produção e queda dos preços frustram os agricultores. Antes do relatório do Usda, a consultoria Safras & Mercado apostava em uma rentabilidade média de 15% a 20%. Após o anúncio da supersafra, a empresa está refazendo os cálculos e diz que a lucratividade deve ser "substancialmente" menor.

Plantio irreversível

A grande maioria dos agricultores já comprou todo o pacote de plantio, com fertilizantes, sementes e defensivos. "Muitos já não tem como voltar atrás e apesar da perspectiva de preços menores, eles devem cultivar uma área maior que a do ano passado", diz França Júnior. A empresa prevê uma colheita de 66 milhões de toneladas, cerca de 30% maior que a obtida em 2003/04. "No máximo, as regiões que plantam mais tarde poderiam diminuir o cultivo", afirma. Apenas regiões mais tardias, como Maranhão, Bahia e Piauí poderiam rever o plantio. "Além disso, qual seria a alternativa à soja? Não há cultivo de verão com perspectiva de bons preços", diz.

No Paraná, a previsão é de aumento de produção (ver matéria), mesmo diante dos preços baixos da commodity, pois o cultivo já começou. "O relatório do Usda não vai reduzir o plantio, pois apesar de tudo ainda há perspectiva de lucro", afirma Antônio Sacoman, coordenador técnico da área de produção de grãos da Cocamar Agroindustrial . No Rio Grande do Sul, a tendência, segundo João Carlos Loro, gerente de compras e produção da Cooperativa Tritícula Três de Maio (Cootrimaio), é de que dificilmente haverá redução na área de soja, pois o milho seria a outra alternativa de plantio, mas a época para o cultivo já passou. Segundo ele, o que pode ocorrer é a redução do uso de tecnologia.

"Os poucos que podem, estão trocando a soja pelo arroz ou as pastagens", diz Endrigo Dalcin, consultor rural que supervisiona uma área de 28 mil hectares de soja na região de Nova Xavantina e Barra do Garça (MT). "Mas essa é uma minoria. A maioria deve enfrentar um ano de margens apertadíssimas na soja".

Falta de crédito

Outro fator determinante para a queda na renda do agricultor é a dificuldade na obtenção de crédito. Segundo levantamento da Safras & Mercado, apenas 9% da safra 2004/05 foi vendida antecipadamente, ante 22% registrados no mesmo período do ano passado. Estão computados os volumes compromissados com soja pré-fixada, a fixar, adiantamento e operações de troca. "Como o crédito privado diminuiu e o público atrasou, vamos ter problemas no ano que vem", afirma Pessôa.

"Esta será a safra do agricultor-empresário, aquele que sabe administrar bem e fazer uma comercialização planejada", diz Rodrigo Nerger, analista da Céleres. Daniel Dias, da FNP Consultoria, diz que o cenário é de margem de lucro menor, mas que o quadro pode melhorar no médio prazo. "O plantio está atrasado e muitos agricultores não conseguirão antecipar o plantio em uma semana, conforme recomendação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) para o controle do fungo da ferrugem asiática", diz. "O ataque de ferrugem pode surpreender em regiões consideradas livres", afirma. Estima-se que o custo de aplicação da ferrugem seja de R$ 190 por hectare, o que inclui três aplicações do defensivo agrícola, o uso de maquinário e a hora trabalhada no campo.

França Júnior diz que os próximos dias devem definir quanto do relatório do Usda será assimilado pelo mercado. Mas ele acredita que os preços do grão ficarão abaixo da média histórica, que era de US$ 6 por bushel (US$ 13,22 a saca de 60 quilos) para o período da colheita no Brasil, podendo chegar até a US$ 5 (US$ 11,02 a saca).