Título: Preços pouco estimulantes no início do plantio
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Fonte: Gazeta Mercantil, 14/10/2004, Opinião, p. A-3

Como era esperado pelos analistas do mercado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), em seu tradicional relatório mensal de oferta e demanda de produtos agrícolas, elevou a sua estimativa de produção mundial de soja de 189,55 milhões de toneladas no ano safra 2003/2004 para 228,94 milhões de toneladas em 2004/05. Parte do incremento previsto deve-se à revisão da safra norte-americana, que se elevou de 77,18 milhões, segundo o relatório de setembro, para o recorde de 84,56 milhões em outubro, quando mais de 50% da produção dos EUA já foram comercializados.

A relutância do USDA em admitir em momento anterior que a safra norte-americana, graças ao aumento da produtividade, seria muito maior contribuiu para desacelerar a queda das cotações no mercado internacional. Confirma-o o movimento imediato das cotações após a divulgação dos novos números. Ontem, pelo segundo dia consecutivo, os contratos da soja na Bolsa de Chicago fecharam em queda, numa possível confirmação da trajetória de baixa, que se manifesta há algum tempo, em razão do desequilíbrio entre a maior velocidade do crescimento da oferta mundial e a menor velocidade do crescimento da demanda mundial.

Com a revisão dos números, os estoques finais dos EUA - o maior produtor - elevaram-se de 5,16 milhões de toneladas para 11,03 milhões, um patamar jamais atingido antes; enquanto os estoques mundiais de passagem saltaram de 38,59 milhões no ano passado para 51,54 milhões em setembro e daí para 59,54 milhões de toneladas em outubro - volume correspondente a quase uma safra brasileira. Em valor, a tonelada de soja foi negociada ontem em Chicago por US$ 187,30 - 30,63% abaixo do preço de um ano atrás, de US$ 260,61.

Essa é a mais baixa cotação em dois anos - e deve ser tomada como referência para os contratos futuros com vencimento em maio do próximo ano, período em que a safra brasileira vai para o mercado. Corrigido pela taxa atual do câmbio, corresponde a R$ 21 por saca, o que significa um prejuízo de pelo menos R$ 2 por saca para o produtor de Mato Grosso, já que o custo de produção no estado seria de pelo menos R$ 24 por saca.

Além da soja, outros produtos, como milho, trigo e algodão, tiveram suas previsões revistas para cima, configurando uma safra mundial recorde, em razão do bom desempenho das lavouras em praticamente todos os grandes países produtores. Mesmo a China, que vinha infletindo a sua estratégia de segurança alimentar, com a renúncia à auto-suficiência e a abertura para importações, num movimento associado à redução dos estoques, deverá obter em 2004/05 a sua melhor produtividade na produção de milho desde 1998/99, entre outros produtos. Isso se deve não apenas às condições meteorológicas favoráveis, com chuvas e temperaturas adequadas na hora certa, mas também à resposta positiva dos produtores chineses aos estímulos governamentais, como redução de impostos, compensações diretas e subsídios para a aquisição de sementes e máquinas.

De novo a registrar no mercado de soja é que a tendência dos preços atuais parece refletir o retorno à "normalidade" do período anterior à entrada da China no mercado como principal país importador. Ou seja, depois de absorver uma China, o mercado mundial de soja parece rumar em direção aos seus valores históricos.

A notícia coincide com a o início do plantio nas regiões produtoras do Brasil em condições de relações de troca desfavoráveis para o produtor. Há um desequilíbrio entre a alta dos insumos e a queda dos preços agrícolas. Nos últimos doze meses, os preços cobrados pelos insumos subiram muito mais que os valores pagos ao produtor, reduzindo-se a renda no campo e a conseqüente capacidade de investimento na atividade.

O reflexo das novas condições de mercado sobre o comportamento da produção não será imediato, entre outras razões porque o ciclo da agricultura não pode ser suspenso. Ao governo, lembra-se nesta hora que segurança alimentar é questão estratégica, e não apenas de mercado. Nos EUA, os produtores não perderão, pois se encontram protegidos pelos subsídios.

Os produtores brasileiros de soja, que nos últimos cinco anos expandiram a lavoura numa escala sem precedente, tendo ampliado em 65% a área, deverão manter em 2004/05 a tendência ao crescimento, ainda que em velocidade menor: a expansão da área deverá recuar de 3 milhões de hectares em 2003/04 para 2,2 milhões. O recuo não é homogêneo entre as regiões, prevendo-se para o Paraná uma expansão de 4% na área e de 25% na produção.

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kicker: As novas estimativas da produção mundial elevam ainda mais as previsões anteriores de crescimento, fazendo desabar os preços