Título: Mercados não tradicionais ainda mais importantes
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Fonte: Gazeta Mercantil, 19/08/2004, Opinião, p. A-2
Os excelentes resultados obtidos no primeiro semestre nas exportações de produtos brasileiros para mercados não tradicionais confirmam o acerto da política de comércio exterior que, além de sua expansão, tem como objetivo diversificar mercados e produtos, sem descurar da prioridade para os mercados desenvolvidos. Dados divulgados pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior mostram que entre janeiro e junho as exportações para esses mercados, correspondentes a 101 países, cresceram 74,4%, em comparação com as do mesmo período do ano passado.
Nos seis primeiros meses do ano, a receita total obtida nas vendas a esses mercados somou US$ 7,5 bilhões, o que representa um acréscimo de US$ 3,2 bilhões em relação ao primeiro semestre de 2003. Em termos absolutos, essa receita adicional foi superior ao total do crescimento das vendas registradas, isoladamente, para os três maiores parceiros do Brasil, que são os Estados Unidos (US$ 1,1 bilhão), Argentina (US$ 1,77 bilhão) e China (US$ 815 milhões).
Acentua-se a tendência manifesta em anos anteriores, em especial a partir de 2003, quando - como resultado da implementação do Plano Estratégico de Promoção Comercial lançado em janeiro daquele ano pelo novo governo e de outras medidas de estímulo às exportações - as vendas externas cresceram 100% para 23 países. Não se exclui nessa avaliação a contribuição de um ambiente externo favorável a tal desempenho. Assumem-se como mercados não tradicionais outros que não os Estados Unidos, a União Européia e o Mercosul.
Empresas exportadoras aumentaram suas vendas especialmente para o Irã, Colômbia, Polônia e África do Sul, entre outros, e também para países até agora pouco conhecidos como parceiros do Brasil, como Micronésia, Chade e República da Moldava.
Ao comentar os resultados, o ministro Furlan observou que os exportadores têm buscado novos mercados, "sem descuidar dos nossos principais parceiros". Em outra ocasião, o ministro comentara que, para o esforço exportador, não há mercado pequeno. De fato, o valor das compras realizadas pela Libéria, por exemplo, saltou de US$ 648 mil para US$ 12, 8 milhões, e pela Polônia, de US$ 49 milhões para US$ 233 milhões. No semestre, a participação conjunta dos países não tradicionais na pauta das exportações brasileiras elevou-se de 11,2% para 14,4% do total.
A direção do esforço exportador não é aleatória. A urgência em se expandir e diversificar as exportações tem levado o País a concentrar o esforço de venda em produtos que já exporta e a identificar mercados potenciais para esses produtos. Interessam, assim, em primeiro lugar, produtos em relação aos quais são conhecidas as vantagens brasileiras.
Tais produtos teriam maior facilidade para penetrar nos mercados pouco explorados pelo exportador brasileiro do que os produtos que o Brasil não exporta. Além disso, são mercados em relação aos quais o Brasil tem conseguido ampliar, de forma acelerada, a venda de itens de maior valor agregado. Entre os produtos "made in Brazil" mais demandados pelos não tradicionais estão autopeças, chassis, automóveis, tratores, aviões, móveis, eletroeletrônicos, bombas e centrífugas. Em contraste, os mercados tradicionais tendem a demandar do Brasil a exportação de produtos primários e a exportar manufaturas.
O avanço em direção aos não tradicionais associa, assim, ao esforço exportador a oportunidade de economia de escala, de aumento da produtividade e de adensamento tecnológico - atributos indispensáveis da competitividade no mercado global. Nota-se aí a coerência - no que diz respeito à agenda do desenvolvimento nacional - entre as políticas industrial, tecnológica, de comércio exterior e de relações exteriores.
Quanto às duas últimas, parece clara a estratégia dos círculos concêntricos: primeiro o nível sub-regional, com Mercosul, depois o regional, com América do Sul, e em seguida a negociação com os Estados Unidos, União Européia e o sistema multilateral.
A diversificação de mercados e produtos constitui-se em dimensão relevante da estratégia de desenvolvimento nacional. A maior agressividade da política comercial conduz a uma menor dependência em relação a mercados específicos e reforça o papel das exportações como instrumento de fortalecimento da capacidade da economia do País de absorver choques externos. É interessante observar que o regime de câmbio flutuante parece ter induzido à tendência em direção à diversificação de mercados e, em menor grau, de produtos.