Título: Lula avança em busca de assento permanente no conselho da ONU
Autor: Romoaldo de Souza
Fonte: Gazeta Mercantil, 19/08/2004, Naional, p. A-4

Em uma das mais ousadas estratégias para conseguir assento permanente no Conselho de Segurança da ONU, privilégio de que somente Estados Unidos, Rússia, China, França e Inglaterra desfrutam, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi um dos incentivadores da explosiva mistura entre futebol e tropas de paz. O Conselho de Segurança é integrado por 15 países. Cinco são permanentes ¿ exatamente os aliados vitoriosos na Segunda Guerra. Quando houver ampliação nesse número de assentos, Alemanha e Japão são candidatos, além do Brasil.

Ao apresentar sua candidatura às Nações Unidas, possivelmente no ano que vem, o Brasil vai anexar documentos mostrando que, desde 1995 quando integrou as tropas de paz para "reconstrução de Angola", o país tem adquirido experiência nesse campo. Além de Angola o Brasil mandou tropas para a República Dominicana, a ex-Iugoslávia e do Timor Leste e agora chefia a Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Minustah). Outros dez assentos rotativos estão distribuídos por continentes e são ocupados por países eleitos para mandatos de dois anos.

Em junho, Lula despachou para o Haiti, uma tropa de 1.236 homens ¿ 984 do Exército, 251 da Marinha e um da Aeronáutica ¿ a um custo de R$ 100 milhões, segundo dados do Ministério da Defesa. As tropas são chefiadas pelo general-de-divisão Augusto Heleno Ribeiro Pereira que comanda, também, a Minustah.

Segundo o coronel Luiz Felipe Carbonell, os brasileiros levaram "pouco tempo para se adaptar à realidade política e a uma população que não tem oferecido resistência ao patrulhamento brasileiro". Carbonell é o porta-voz da tropa e fala com o Brasil sempre que a comunicação permite. "O moral da tropa é elevado e isso orgulha ainda mais o Brasil de participar dessa missão humanitária", disse.

Desde que o presidente Lula apoiou, no mês passado, a decisão de realizar a partida de futebol de ontem, entre as seleções do Brasil e do Haiti, o governo brasileiro já comemorava o "gol de placa", na opinião do assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia que sempre viu na iniciativa "um fortalecimento para a nossa política internacional". O presidente Lula assistiu à partida, em Porto Príncipe, capital do Haiti, na qual o Brasil saiu vencedor por 6 a 0.

Já a decisão de integrar as forças de paz das Nações Unidas foi aprovada no Congresso. Entretanto, há quem tema que as tropas de paz sejam uma maneira de referendar a intervenção dos Estados Unidos. Segundo o deputado Ivan Valente (PT-SP), "a situação de instabilidade, momentânea, não garante que as tropas não corram risco". Para o ministro da Defesa, José Viegas, pesou o pedido do secretário-geral da ONU, Kofi Annan.

Uma missão brasileira visitará o Haiti brevemente com o objetivo de realizar pesquisa para definir projetos de cooperação nas áreas de agricultura, segurança pública, educação e ajudar a reerguer o Poder Judiciário. O anúncio foi feito ontem pelo presidente Lula, durante discurso após desembarcar no aeroporto internacional Toussaint Louverture, em Porto Príncipe.

O presidente disse aos integrantes da Minustah que o Brasil chefia as tropas da ONU para "ajudar a restabelecer a ordem e a segurança", e reconstruir o país. "Venho ao Haiti, para celebrar a paz. A paz que vocês estão ajudando a devolver ao povo haitiano", disse. "O principal objetivo do Brasil é que o Haiti volte a levantar-se em defesa do seu destino", disse Lula, "e a comunidade internacional confia na nossa capacidade de contribuir para a paz".