Título: Brasil pode fazer bombas, diz pesquisador
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Fonte: Gazeta Mercantil, 25/10/2004, Energia, p. A-6
A usina de Resende (RJ) tem potencial para produzir urânio enriquecido suficiente para seis bombas atômicas por ano, disseram pesquisadores dos Estados Unidos em artigo publicado na sexta-feira. O governo brasileiro nega a informação.
O comentário, feito pelo Projeto Wisconsin para Controle de Armas Nucleares e publicado na revista Science, surgiu três dias depois de especialistas da ONU visitarem a usina para resolverem uma polêmica em torno das inspeções.
"Na sua capacidade anunciada, a nova instalação do Brasil, localizada em Resende, terá o potencial para produzir urânio suficiente para cinco ou seis ogivas por ano", disse o artigo, assinado por Gary Milhollin, diretor do Projeto Wisconsin, e pela pesquisadora associada Liz Palmer.
O Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, órgão da ONU) negociam há um ano mas ainda não chegaram a um acordo sobre o grau de acesso que os inspetores podem ter..
A AIEA quer acesso total à fábrica, a fim de garantir que não há urânio sendo desviado para a fabricação de armas. O Brasil, interessado em proteger seus segredos tecnológicos, alega que um acesso parcial é suficiente.
A ONU e os Estados Unidos pressionam o Brasil a resolver o impasse, pois temem a criação de um precedente para países como Coréia do Norte e Irã, acusados por Washington de tentarem construir bombas atômicas. O governo brasileiro afirma que a usina de Resende produzirá apenas urânio para a geração de energia nas usinas nucleares de Angra dos Reis.
Os pesquisadores disseram que, com as melhorias programadas em Resende, a capacidade da fábrica alcançará em 2010 o suficiente para de 26 a 31 ogivas por ano, e algo entre 53 e 63 até 2014
"O que estou fazendo é dar o potencial teórico da fábrica", disse Milhollin à Reuters, acrescentando que não acredita que o Brasil pretenda de fato produzir armas nucleares. "Eles teriam de reconfigurar as centrífugas, mas poderiam fazer isso com o que já têm, com os equipamentos existentes."
O Projeto Wisconsin é uma entidade privada, sem fins lucrativos. Seu objetivo é impedir a proliferação de armas nucleares. Questionado, o ministro da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos, defendeu o direito do país desenvolver a tecnologia de enriquecimento de urânio para fins pacíficos.
O Brasil espera fechar um acordo com a AIEA dentro de 30 dias. A unidade de Resende só será autorizada a enriquecer urânio depois do começo das inspeções.
O urânio usado para a geração de energia precisa de um baixo nível de enriquecimento, cerca de 3,5 por cento. Para produzir armas, o material precisa ter pelo menos 90 por cento de enriquecimento.
Edson Kuramoto, presidente da Associação Brasileira de Energia Nuclear, disse que o espaço necessário para produzir urânio para armas seriam muito maior do que o existente em Resende. "O artigo não se baseou em cálculos científicos", afirmou.
O artigo diz que o Brasil pode desenvolver a capacidade de produzir armas com rapidez, sem que o resto do mundo possa impedir, e ressalta que, se não houver inspeções totais em Resende, "o Irã pode exigir o mesmo tratamento".