Título: "Temos de estar presentes nas áreas..."
Autor: Lívia Ferrari
Fonte: Gazeta Mercantil, 20/08/2004, Nacional, p. A-6

Com um misto de irritação e cansaço, o presidente do BNDES classificou como "ignorância" as "agressões irresponsáveis" que tem sofrido. Lessa não particularizou as críticas que recebe, mas reclamou que "elas se repetem como numa campanha sistêmica". Disse que "sou professor, por natureza aberto à diversidade de opiniões, mas não posso tolerar intrigas", e, taxativo, chamou para o debate: "Adoraria que esses críticos, que navegam na ignorância, me questionassem em público."

Com a didática de professor, Lessa decorre sobre os ciclos do desenvolvimento industrial do País, onde, destacou, a presença da empresa estrangeira sempre foi determinante. "Jamais os projetos nacionalistas afugentaram as empresas estrangeiras. Pelo contrário, elas prosperaram com o Brasil", disse Lessa, fazendo questão de deixar clara a posição do banco estatal de fomento. "O BNDES é um instrumento do estado nacional brasileiro, que segue a risca as orientações estratégicas dadas pelo governo nacional, eleito democraticamente. O BNDES não é provinciano nem xenófobo. É serventuário dos interesses nacionais", disse. Os números mostram que os financiamentos contratados este ano junto ao banco por empresas estrangeiras somaram R$ 2,4 bilhões até julho último, valor acima dos R$ 1,7 bilhão de todo ano de 2003 e dos R$ 1,6 bilhão de 2002.

Segundo ele, nas negociações que estão sendo travadas com o grupo Arcelor (com sede em Luxemburgo) e com outros grupos estrangeiros para parcerias em novas siderúrgicas, "que provavelmente iremos financiar", o BNDES faz absoluta questão de incluir cláusulas que impeçam o desvio dessas empresas como centro de custos. "Ao fazer isso, estamos defendendo o interesse estratégico do País a longo prazo. Em resumo: queremos investimento estrangeiro nesses negócios. Porém, queremos parcerias com nacionais e acordos de acionistas que nos dêem segurança de que esses negócios serão geridos a luz dos interesses nacionais brasileiros."

Ele ressaltou que o banco acompanhará de perto empresas estratégicas para o futuro do País. "Uma das medidas mais controvertidas da nossa gestão foi quando exercemos o direito de preferência que tínhamos nas ações do clube de acionistas da Valepar - holding que controla a Companhia Vale do Rio Doce (CVRD). Fizemos isso para evitar que a empresa perdesse o caráter de empresa brasileira. Gostamos muito da participação que os japoneses têm na Vale (através da Mitsui). Porém, queremos que ela fique do tamanho que está", disse, referindo-se à compra no início do ano de 8% de participação na Valepar.

Ainda traumatizado com o caso AES, grupo norte-americano que tinha débito de US$ 1,2 bilhão junto ao BNDES em financiamentos para a compra da Eletropaulo, num processo herdado do passado, Lessa disse que o banco de fomento somente apoiará operações de `project finance¿ quando tiver co-financiamento da matriz no exterior ou garantia de banco de primeira linha.

Outra coisa que incomoda Lessa, segundo admitiu, é quando empresa brasileira transfere controle, por permuta de ações, para estrangeiros. "É o caso da AmBev. O BNDES deu 600 financiamentos à Antárctica e à Brahma (que se uniram para formar a AmBev) entre 1960 e 2000 e não poderá ser ressarcido. Para o BNDES, esta fusão é uma "operação totalmente desinteressante".

Ele frisou que o BNDES não abre mão de promover os interesses nacionais. "Esses interesses nacionais têm que estar em perfeita consonância com a estratégia de desenvolvimento do País. Estamos atuando a nível de projeto e necessariamente temos que discutir com os empresários para conseguir que o interesse nacional esteja em sua melhor configuração no empreendimento que vamos financiar. Isso não pode ser entendido como uma intromissão. Afinal de contas, os recursos de financiamentos são nossos", afirmou.

Lessa lembrou que, em sua nova política operacional, lançada em março deste ano, o banco adotou diferencial de taxas de juros entre capital o estrangeiro (5% ao ano) e o nacional (4%). A medida gerou "celeuma brutal", admitiu ele, e o BNDES voltou atrás, igualando as taxas. Nenhuma operação chegou a ser realizada na ocasião.

"O que queríamos com a diferenciação simbólica de juros era sinalizar ao empresário nacional que o banco voltava a ser a casa preferencial desse empresário. Coisa que queremos ser, sim. Somos uma instituição do Estado nacional brasileiro para promover o desenvolvimento brasileiro. E temos preocupação com os protagonistas do desenvolvimento", disse.

Lessa disse estar "aflito" com a timidez das grandes empresas, nacional e estrangeira, cujos projetos de investimentos estão chegando ao banco em ritmo abaixo do desejado. "Temos tido sucesso em aumentar muito as operações com as pequenas e médias. Mas a grande empresa, pelo seu porte, observa muito antes de investir para ter certeza de que os movimentos de expansão da economia são firmes. Por esta razão, não surpreende esta relativa cautela das grandes empresas", explicou.

Segundo ele, não é pelo financiamento do BNDES que o empresário estrangeiro toma a decisão de investir. "É o comportamento da economia como um todo que determina o investimento. E quando a economia está indo bem, o empresário estrangeiro pega dinheiro lá fora porque é muito mais barato que o nosso."