Título: Expansão depende da reação às...
Autor: Cristina Borges Guimarães e Sandra Nascimento
Fonte: Gazeta Mercantil, 27/10/2004, Primeira página, p. A1

Já especificamente para o setor de papel e celulose, o mercado externo não apresenta nenhum problema, graças à grande competitividade do Brasil na produção de celulose, disse Amoroso.

Quanto ao petróleo, o economista da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), André Rebelo, disse que o petróleo representa 12% do custo total da indústria de transformação. "A alta no preço do insumo no mercado internacional terão forte impacto na indústria, que por sua vez terá dificuldade de repassar os aumentos." Para ele, trata-se de um choque forte que terá reflexo no crescimento mundial e não só do Brasil. "A alta do petróleo está durando mais do que se imaginava inicialmente. Os preços devem demorar até 2010 para voltar ao patamar de US$ 35 por barril registrado no inicio deste ano."

Para o economista da LCA Consultores, Braulio Borges, que trabalha com projeção de 3,8% para o PIB em 2005, minimizou a queda na expectativa de crescimento de 3,6% para 3,5% apontada pela pesquisa de mercado divulgada pelo BC na segunda-feira. Ele acredita que as previsões não são mais altas em função da preocupação do mercado com a desaceleração geral da economia mundial esperada para o ano que vem. "Por muito tempo a previsão do relatório ficou em 3,5% e subiu para 3,6%, voltando a cair para 3,5% nesta segunda. Apenas se as reduções persistirem é que se pode considerar que alta do petróleo foi incorporada", disse Borges.

Segundo ele, uma desaceleração do mercado mundial mais suave do que o esperado pode até dar espaço para um crescimento acima de 4% em 2005. "O barril de petróleo, que hoje está em US$ 55, deve apresentar um preço médio de US$ 40 no ano que vem. Além disso, as projeções de mercado já incorporam uma Selic de até 17% e inflação de 5,9% sem ameaçar o crescimento sustentado", disse.

Entre os que esperam crescimento de 3,5%, assim como apontou o Focus, estão Evaldo Alves e o economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Julio Gomes de Almeida. Almeida acredita que o preço do petróleo deve cair e que apesar do resultado comercial brasileiro tender a ser menos brilhante no ano que vem será compensado pela retomada do mercado doméstico. "As perspectivas de crescimento mundial estão mantidas, apesar do petróleo. Os Estados Unidos, sim, são a incógnita", disse Almeida.

De acordo com Alves, pelo foco externo, o PIB nacional dependerá da velocidade da desaceleração econômica dos Estados Unidos. "Pelo foco interno, o problema é o déficit fiscal e a conseqüente redução dos investimentos públicos que afeta a expectativa do setor privado, que também deixa de investir", disse Alves. Para ele, a conseqüência da junção destes dois cenários é um quadro de baixa taxa de crescimento. "Estamos administrando um superávit primário para pagar a dívida. Por isso, enquanto países do mesmo nível de desenvolvimento do Brasil ¿ como China, Índia e México ¿ crescem a taxas acima de 5%, temos um crescimento mais modesto, mas dificilmente abaixo de 3,5%."

Para Almeida, o BC vai evitar qualquer crescimento muito maior que 3% por causa das metas inflacionárias. "A retomada do mercado interno é limitada pelos aumentos dos juros, que também limitam a participação da indústria no crescimento do país. Mas mesmo assim a demanda interna irá compensar a desaceleração das exportações."

As projeções do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) são mais otimistas. No último relatório trimestral do Ipea divulgado em setembro a expectativa é de crescimento de 3,8%, superior aos 3,7% projetas em junho. O economista do Ipea, Estêvão Kopschitz, acredita que não deve haver revisão da previsão porque os aumentos da Selic já foram incorporados.

"Além disso, existem dois fatores mais importantes que a alta do preço do petróleo: a confirmação do aumento dos juros e a revisão para cima das projeções para o PIB 2004", disse Kopschitz. Ele explica que em função do uso de modelos econométricos para realizar as previsões é normal que um resultado acima do esperado no segundo semestre de 2004 leve a uma redução das estimativas para 2005.