Título: O desafio do comércio exterior em 2005
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 27/10/2004, Opinião, p. A-3
Os dados do comércio exterior divulgados no início desta semana pela Organização Mundial do Comércio e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior não só confirmam o desempenho excepcional das exportações brasileiras, mas também mostram que o volume das importações está crescendo.
Se, de um lado, as exportações têm contribuído para o atual surto de crescimento da economia brasileira e para um saldo positivo da balança comercial, o que dá maior tranqüilidade ao governo em relação ao fechamento das contas externas e segurança para enfrentar eventuais distúrbios na economia internacional, de outro, as importações, principalmente de máquinas e equipamentos e de matérias-primas, dão sustentação ao crescimento, ao permitir às indústrias ampliar o parque fabril e a capacidade produtiva para atender o aumento da demanda.
Portanto, os dados do comércio exterior são auspiciosos. Não só por isso, entretanto. Eles revelam uma mudança nos padrões dos negócios brasileiros com o exterior.
Durante toda a década de 80 e 90, as exportações brasileiras equivaliam a apenas 1% ou a 0,9% do comércio internacional. Depois de ficar empacadas em 0,9%, em 2003 as exportações se recuperaram ligeiramente e, com negócios no valor de US$ 73 bilhões, voltaram a 1%. A previsão para este ano é que cheguem a 1,3% do comércio mundial. A comparação com o desempenho da China mostra como o Brasil patinhou durante duas décadas, enquanto o comércio exterior chinês saiu praticamente do zero em 1980 para 30% de participação internacional atualmente. Um desempenho de dar inveja a qualquer país emergente.
Embora em termos globais o desempenho das exportações brasileiras, mesmo que se confirme o crescimento de 1% para 1,3%, seja praticamente insignificante, o crescimento relativo neste ano é significativo. O estudo da OMC mostra que no primeiro semestre as vendas do Brasil ao exterior cresceram 31% em relação ao mesmo período de 2003, enquanto o crescimento médio mundial foi de 20% e o da China, de 35%. Assim, com negócios no valor de US$ 73,1 bilhões, o Brasil ocupa o 25 lugar entre os maiores países exportadores do mundo. A China, com US$ 437 bilhões, está em quarto lugar, depois da Alemanha, Estados Unidos e Japão ¿ portanto, nesse aspecto, sem termos de comparação com o desempenho do Brasil.
Neste ano, os aumentos especulativos do preço do petróleo no segundo semestre não foram suficientes para abalar o crescimento do comércio mundial, que foi impulsionado, por uma ironia do destino, justamente pelos países emergentes da Ásia (com destaque para a China), da América Latina (no caso, principalmente pelo Brasil) e da África. A recuperação econômica do Japão, depois de anos de estagnação, também contribuiu para o bom desempenho internacional.
No próximo ano as perspectivas não são tão boas, mas, por enquanto, nada que indique catástrofes. Tudo depende do preço do petróleo, que ontem fechou a US$ 55,17 o tipo WTI, na Bolsa de Mercadorias de Nova York, e a US$ 51,56 o tipo brent, na Bolsa Internacional de Petróleo de Londres. Há quem preveja que poderá chegar a US$ 60 no início 2005. Com certeza, essa é mais uma jogada nesse mercado dominado pela especulação por conta de eventos fortuitos, como greves na Nigéria, na Noruega ou no Brasil.
A verdade é que, depois de dois choques do petróleo, a economia mundial está absorvendo melhor os recentes aumentos. O crescimento internacional, entretanto, será menor. A Comissão Européia, por exemplo, reduziu ontem sua estimativa de crescimento, para 2005, de 2,3% para 2%, ligeiramente inferior ao previsto para este ano, de 2,1%. E a desaceleração das principais economias do mundo e do principal trator que puxa o crescimento mundial, a economia chinesa, provocará uma inevitável redução do comércio mundial.
Já prevendo essa desaceleração, o governo brasileiro estima que o volume das exportações brasileiras em 2005 atingirá US$ 100 bilhões, pouco acima do projetado para este ano, de US$ 94 bilhões, considerando um crescimento de 30% em 2004.
Para atingir a meta de US$ 100 bilhões em 2005, principalmente num cenário internacional adverso devido aos preços do petróleo, a política cambial será crucial. Mantido o câmbio flutuante, o real não poderá se manter sobrevalorizado, sob risco de inibir as exportações, nem excessivamente desvalorizado a ponto de tornar inviáveis as importações, tão necessárias para garantir a sustentabilidade de crescimento. Mais do que o controle da inflação, esse será o teste de fogo para o Banco Central.
kicker: As importações dão sustentação ao crescimento, ao permitir às indústrias ampliar o parque fabril e a capacidade produtiva