Título: O software na política industrial
Autor: Neissan Monadjem
Fonte: Gazeta Mercantil, 25/08/2004, Opinião, p. A-3

Nos últimos meses, é raro falar de exportação de software sem mencionar o já famoso exemplo a ser emulado: Índia. Fala-se tanto dela, que em breve qualquer artigo sobre exportação de software terá aroma de curry. Mas a retórica exportadora começa a evoluir para ações e percebe-se o movimento de novas forças se agrupando no mercado. Desde março repercute na indústria de software a política de desenvolvimento do governo Lula e pela e primeira vez o setor passa a ser "pauta estratégica" em meio ao grupo restrito de quatro indústrias-foco (software junto a fármacos, indústria de base e de microeletrônica). Nesse contexto o Núcleo de Exportação de Tecnologia (Next), o primeiro e maior consórcio brasileiro de empresas de tecnologia da informação voltado à exportação, responsável por mais de R$ 1 bilhão de faturamento e reunindo 10 mil colaboradores, inaugura um novo ciclo. O ciclo da realização de sua visão. De consórcio de alto acoplamento e integração, passa a holding empresarial. Isso é necessário porque as empresas de software que o compõe resolveram assumir o salto entre a avaliação do benchmark internacional, para um processo de execução de seu modelo estratégico. Isso exigirá mais do que o pioneirismo da criação de um modelo sustentável - será a criação da maior multinacional de software brasileira. É justo afirmar sobre o Next a autoria de um processo profundo de estruturação que exigiu 18 meses de maturação e 80 reuniões distribuídas por 8 grupos estratégicos. Sua repercussão reflete-se na criação de novos proto-consórcios que têm acontecido no vácuo de sua formação. O desafio de formar estruturas e processos que permitam levar uma grande visão empresarial à realidade é um imenso desafio. A empresa que a holding do grupo constituirá nos EUA será, sozinha, responsável por 10% de todo o compromisso de exportação de software assumido pelo governo. Recentemente, o próprio presidente, em evento relacionado à exportação onde a hostess era Carly Fiorina, CEO da HP, repetiu que o setor de software em 2008 deverá exportar US$ 2 bilhões. Materializar tal cifra exige a imediata mobilização de um setor com 160 mil colaboradores e apoio sustentável de dispositivos de crédito e fomento do governo federal, de forma similar à qual o governo da Índia, Israel e Irlanda propiciaram como impulso inicial. Só o governo, o maior comprador de software do País, tem massa crítica para substituir o que os indianos tiveram como catalisador de seu crescimento há seis anos: o "bug do ano 2000", que gerou espetacular demanda por seus serviços e multiplicou em poucos anos suas exportações aos EUA. Repito as palavras do ministro da Secretaria de Comunicação de Governo e Gestão Estratégica quando do lançamento do Next, ao descrever como se dá o legítimo apoio do governo: "Ajuda criando um ambiente propício à produção, ajuda criando e removendo marcos regulatórios, ajuda usando seu esforço diplomático para ampliar mercados". Além desse apoio, esse segmento com características globais requer que as empresas brasileiras tenham de atingir padrões de qualidade e escala internacionais, preservando seus diferenciais baseados na riqueza e diversidade brasileira, que ainda neste setor não é mundialmente reconhecida. O primeiro passo, que é institucional, já foi dado: elaborada com significativa participação dos setores envolvidos, a política industrial inova em duas frentes: 1) soube envolver o setor privado com consultas só possíveis aos que reconhecem com humildade a necessidade de aprender; e 2) soube articular um esforço interministerial, promovendo um tráfego entre os anexos do eixo monumental em Brasília, raramente visto em administrações anteriores, no Planalto. O modelo Next é inovador em dois pontos primordiais: 1) é fruto de uma união que valorizou a diversidade tecnológica e estrutural, mas focando-a em um mercado-alvo bem definido; 2) e contorna o problema da marca Brasil, hoje embrionária no reconhecimento internacional em mercados compradores de TI. Faremos isso demonstrando a competência do software antes da procedência do capital intelectual que o criou. Faremos no Brasil o caminho reverso que multinacionais de software fizeram quando aqui aportaram e contrataram brasileiros como seus executivos. Cristalizando nosso foco exportador, relaciono, por fim, duas das sugestões do Next à política de exportação do MDIC: 1) trade-off de créditos fiscais para as subsidiárias brasileiras das empresas Fortune 500¿s, cujas matrizes adquiram software brasileiro; e 2) lançamento de campanha nacional de apoio, por permutas de ISS, à formação na língua inglesa de 100 mil profissionais de TI em dois anos. Depois de se projetar uma visão inovadora de crescimento, é necessário a persistência para materializá-la. Essa é a tarefa que assumimos hoje e para a qual convidamos as demais empresas de TI brasileiras!