Título: EUA querem rever status de economias em desenvolvimento
Autor: Claudia Mancini
Fonte: Gazeta Mercantil, 12/11/2004, Internacional, p. A-9

O Congresso dos Estados Unidos, que têm forte poder de pressão sobre os negociadores de acordos comerciais do país, deve pressioná-los a buscar mudanças no tratamento de países em desenvolvimento mais avançados, como o Brasil, na Organização Mundial do Comércio (OMC). Perder esse status, mesmo que parcialmente, poderia significar que o mercado brasileiro teria que oferecer um nível maior e mais rápido de abertura do que sua condição atual permite. E se o Brasil tiver de oferecer mais, fica, por exemplo, mais fácil para um governo como a dos EUA vender internamente as concessões que fará ao País.

A orientação na instituição é que as economias em desenvolvimento tenham tratamento especial, principalmente se forem as de menor desenvolvimento relativo, as mais pobres do mundo. O agrupamento na mesma categoria de economias que não são desenvolvidas, mas podem ser muito diferentes entre si, "é uma das nossas grandes preocupações", disse a este jornal uma fonte do Senado americano.

Freqüentemente o United States Trade Representative (USTR), que negocia os acordos comerciais do país, fala com os congressistas que tratam desses acordos. No Senado, eles estão em especial na Comissão de Finanças. Antes de serem votados no plenário, os tratados são votados na comissão. Se houver veto, muito provavelmente ocorrerá o mesmo no plenário. A comissão tem como líder o republicano Chuck Grassley, do Iowa.

EUA, União Européia e outros países desenvolvidos de tempos em tempos levantam a questão sobre os países em desenvolvimento, na qual Brasília não tem o menor interesse. Não é o maior debate em curso em Genebra, existe e o assunto aparece especialmente em encontros de funcionários de alto nível. Como a competitividade internacional da produção agrícola do Brasil é evidente em várias assim, assim como de alguns setores industriais, nos próximos meses a pressão sobre o País pode ficar mais forte, disse um diplomata brasileiro em Genebra.

"Achamos que essa é uma discussão mal colocada", afirmou o diplomata. Segundo ele, o mandato de negociação da Rodada de Doha não inclui rediscussão das categorias dos países.

"O Brasil não é Bangladesh. Por que para alguns países deve haver regras especiais?", questionou a fonte do Congresso americano. "Há muitas pessoas pobres no Brasil, mas há também agricultores que são muito competitivos e competem diretamente contra os produtores dos Estados Unidos", afirmou. Por isso, há agricultores americanos que têm dificuldade de entender porque seus competidores podem ter algum tipo de benefício, disse a fonte, que citou também a capacidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) e o fato de o País ser o maior exportador do mundo de produtos como soja, carne bovina e de frango. Dado que há uma grande parte da população de um país como o Brasil que é pobre, a fonte disse ser preciso conversar a respeito, para decidir como o assunto pode ser tratado.

A negociação da Rodada de Doha é a maior prioridade dos EUA entre os acordos comerciais, porque envolve vários países e fica mais fácil obter um equilíbrio entre concessões e benefícios conseguidos. Um dos maiores interesses do país é a abertura de mercados agrícolas como o da Índia.

Em relação à Área de Livre Comércio das Américas (Alca), a fonte afirmou que Grassley é a favor de sua criação, mas que tem de ser um bom acordo. Isso significa ser amplo, atingindo todos os setores. Se for limitado, beneficiará alguns poucos setores e isso pode dificultar a aprovação no Congresso. Isso porque congressistas de áreas com interesses na Alca, mas que ficaram de fora, podem barrar o acordo. Na Alca, acesso ao mercado industrial brasileiro e a proteção à propriedade intelectual estão entre as maiores prioridades do Congresso, afirmou.

kicker: Idéia é que países como Brasil não devem ser tratados como outros mais pobres