Título: Superávit recorde em contas correntes
Autor: Edna Simão
Fonte: Gazeta Mercantil, 26/08/2004, Nacional, p. A-4
Saldos comerciais expressivos e queda nos gastos com serviços geram resultado histórico em julho. Os consecutivos recordes da balança comercial e a ligeira redução dos gastos com serviços geraram um superávit recorde de US$ 1,81 bilhão nas transações correntes (diferença entre o que o País paga e recebe em divisas do exterior). Este é o segundo melhor resultado conseguido pelo Brasil desde 1947, quando o Banco Central (BC) começou a produzir essas estatísticas, perdendo apenas para junho (US$ 2,06 bilhões). Considerando apenas os meses de julho, é o maior superávit em conta corrente já apurado na história.
A perspectiva para agosto também é bastante positiva. O chefe do Departamento Econômico do BC (Depec), Altamir Lopes, projeta um superávit em conta corrente de US$ 1,7 bilhão.
No acumulado de janeiro a julho, o saldo positivo atingiu US$ 6,23 bilhões. Com este resultado, a projeção da autoridade monetária, que é de um superávit de US$ 2,5 bilhões para este ano, deverá ser elevada em setembro. "Nossa projeção atual é conservadora", afirmou Lopes. Ele acrescentou que, em 12 meses, o superávit em transações correntes atingiu US$ 8,99 bilhões ou 1,69% do PIB, os melhores resultados desde 1947.
Mercado interno retoma o fôlego
Segundo o chefe do Depec, o aumento de US$ 6,08 bilhões no superávit comercial, em comparação entre os sete primeiros meses deste ano com o de 2003 (passando de US$ 12,45 bilhões para US$ 18,53 bilhões), tem sido o principal responsável pelos resultados expressivos da conta corrente. O importante é que, ao contrário do que aconteceu em outros anos, o crescimento das exportações vem acompanhado pela expansão das importações, o que demonstra que o mercado interno está retomando o fôlego, disse Altamir Lopes.
Lopes ressaltou, no entanto, que a conta de serviços - tradicionalmente deficitária - tem dado grande contribuição pois não apresenta crescimentos expressivos. No acumulado de janeiro a julho deste ano, as despesas com serviços somaram US$ 2,32 bilhões, chegando a ser menores que os US$ 2,71 bilhões verificados no mesmo período de 2003.
Este movimento é justificado pelo aumento das exportações de produtos manufaturados. O País tem feito mais receitas com os serviços vinculados as exportações como assistência técnica. A venda de aviões da Embraer é um exemplo disso. Segundo o chefe do Depec, no caso das viagens internacionais, as receitas acumuladas em 12 meses totalizaram US$ 3,01 bilhões, o melhor resultado desde 1947. No acumulado do ano, os estrangeiros deixaram, líquidos, no país US$ 345 milhões. Em julho, a despesa líquida com viagens internacionais foi de US$ 25 milhões em julho. Em agosto, até ontem, o número estava positivo em US$ 18 milhões.
Lopes explicou que o superávit em conta corrente elevado, no momento, é importante para que o país não eleve o endividamento externo. Esta situação, no entanto, não deve ser repetida por várias anos. Com o tempo, o resultado de transações correntes deverá ser equilibrado ou com ligeiramente deficitário. O quadro ideal é quando o passivo externo é coberto por investimentos estrangeiros diretos. "Mas você não vai correr atrás de déficit", afirmou Lopes, explicando que o superávit de transação corrente é compatível com a previsão de crescimento do País.
Com o superávit em transações correntes de US$ 1,81 bilhão e conta capital e financeira (onde aparecem os empréstimos e investimentos feitos pelo país) deficitária em US$ 1,47 bilhão, o saldo global do balanço de pagamento (que registra todas as operações feitas pelo Brasil com o exterior) foi positivo em US$ 162 milhões. No acumulado dos sete primeiros meses do ano, o balanço de pagamentos é superavitário em US$ 1,51 bilhão, anunciou o BC.
A nota sobre o setor externo, divulgada ontem pelo Banco Central mostra ainda que a dívida externa estimada para maio do país registrou uma redução de US$ 6,2 bilhão em relação a março, atingindo US$ 207,24 bilhões. A queda foi justificada, principalmente, por pagamentos de dívida de médio e longo prazos, como bradies, global e C-Bonds. A valorização do dólar frente às principais moedas que compõem o passivo da dívida externa brasileira contribuiu com uma redução de US$ 1,2 bilhão.