Título: Mercados em queda, problemas em alta
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 17/11/2004, Opinião, p. A3

Os recentes anos de esplendor do agronegócio de exportação no Brasil chegaram ao fim, como os produtores de visão e precavidos já sabiam. Os negócios estão na rampa descendente da montanha russa dos ciclos econômicos. Mas isso não significa que continuarão indefinidamente em baixa. Em um, dois ou três anos, eles voltarão ao ápice, novamente. Neste momento é preciso perseverar para não desanimar.

O passado ciclo de alta do agronegócio se beneficiou de fatores como a quebra de safras de grãos (em especial da soja) em outros países, os baixos estoques mundiais e a demanda crescente de grandes mercados, como os Estados Unidos e a China. Os produtores brasileiros mais previdentes se capitalizaram e se prepararam para o período pior que virá. Durante essa fase favorável ao Brasil, só nos EUA, para citar um caso, os estoques de soja vinham caindo de safra em safra, desde a de 1998/1999, quando eram de 9,5 milhões de toneladas, até chegar a 3,1 milhões de toneladas no final da safra 2003/2004.

Em setembro último, o Departamento de Agricultura dos EUA (Usda) previu que a nova safra do país deve atingir um recorde de 84 milhões de toneladas. Com isso, os estoques previstos para o final da safra 2004/2005 serão de 12,5 milhões de toneladas. Era o dado que faltava para o agronegócio brasileiro confirmar o ciclo de queda, que já se evidenciava desde abril.

Para a safra 2004/2005, os produtores brasileiros de grãos ¿ em especial de soja, o carro-chefe das exportações de commodities ¿ enfrentam condições desfavoráveis, como a queda acentuada dos preços internacionais, a sobrevalorização do real, os aumentos dos custos de produção e a redução da demanda mundial, entre outros.

No caso dos preços, as quedas neste ano foram de 36,2% para a soja, de 42,9% para o algodão, de 21,5% para o trigo e de 21,4% para o milho. Na última sexta-feira, o real atingiu o ápice em sobrevalorização, com o fechamento do dólar em R$ 2,79 ¿ o menor valor desde 20 de junho de 2002.

Nesta safra, os produtores brasileiros também estão pagando 30% a mais pelos fertilizantes, devido às altas recordes dos preços internacionais do petróleo, e 17% a mais por máquinas e equipamentos agrícolas, por conta do aumento do preço do aço.

O Brasil também está sendo afetado pela redução da demanda mundial, principalmente da China, nosso maior importador de soja. Após cinco anos de ampliação de suas compras, que no total quintuplicaram nesse período, neste ano a China reduziu 21% suas importações e tem planos de aumentar 23% sua produção interna.

Quando todos ganham dinheiro, muitos problemas latentes são empurrados com a barriga. E só vêm à tona quando a renda encurta e há ameaça de empate ou perda. É o caso, por exemplo, da concentração dos negócios de commodities agropecuárias nas mãos de meia dúzia de grandes empresas, em geral multinacionais.

Especialistas da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) constataram que pequeno número de empresas controla metade das exportações das cinco principais commodities do agronegócio brasileiro e que, neste ano, representam US$ 20,5 bilhões de vendas ao exterior. Mais especificamente, quatro processadoras exportam 80% do complexo soja; quatro empresas negociam 89,6% das vendas externas de suco de laranja; os maiores frigoríficos respondem por 73% das exportações de carne bovina; as maiores empresas processadoras de frangos controlam 60% das exportações e as de suínos, 52%.

Se, de um lado, essa concentração favorece as vendas ao exterior, uma vez que o próprio mercado de commodities exige escala, de outro, a existência de pequeno grupo de empresas que controla um produto não é saudável para a livre concorrência. A conseqüência, inevitável, é a formação de um oligopsônio ¿ um "palavrão" em economês para designar uma situação de mercado dominada por número limitado de produtores, em que cada um é forte o suficiente para influenciar o mercado, mas não pode desprezar seus concorrentes.

Nesses casos, os prejudicados, em geral, são os mais fracos ¿ os produtores agropecuários isolados e, em última instância, os consumidores.

A CNA chega a propor, no caso dos frigoríficos, uma análise pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade). Acreditamos não se tratar de uma questão para o Cade, embora o governo deva ficar atento à questão.

E o mercado tem condições de resolver a questão. É preciso que os produtores agropecuários se organizem e consigam grandes volumes de produtos para exportar por meio de cooperativas ou de trading companies, de modo a escapar das pressões e manobras dos oligopsônios. kicker: Se, de um lado, a concentração favorece as vendas ao exterior, de outro, não é saudável para a livre concorrência