Título: Governo admite editar MP para liberar transgênico
Autor: Sérgio Prado e Daniel Pereira
Fonte: Gazeta Mercantil, 27/08/2004, Primeira Página, p. A-1

Soja e algodão são as principais preocupações. de São Paulo e Brasília

O Executivo admite editar uma nova medida provisória para liberar o uso de semente de soja transgênica na safra que começa a ser cultivada na primavera. Por lei, o uso de espécies modificadas é proibido no Brasil. Ontem, um ministro de Luiz Inácio Lula da Silva, além dos senadores petistas Tião Viana (AC) e Ideli Salvatti (SC) afirmaram que inexiste tempo hábil, antes do plantio, para que o Legislativo finalize a votação da Lei de Biossegurança.

Essa proposta, que regulamenta em difinitivo a política para o setor, está travada no Senado desde o início do ano. Nos últimos dias, os produtores de algodão também passaram a reivindicar o mesmo tratamento. Defensor incondicional da agricultura de exportação, Lula apostou que o Congresso levaria adiante sua proposta, enviada à Câmara em 2003.

O ministro Roberto Rodrigues, da Agricultura, também disse que a idéia da medida provisória estava descartada. Mas até agora eles não tiveram êxito. Ocorre que o tempo da vida real na planície é diferente daquele do Planalto. Quem vai plantar quer lei. Afinal, o que está em jogo é o maior agronegócio brasileiro, um dos grandes responsáveis pelo saldo de US$ 30 bilhões na balança comercial. De acordo com o Ministério da Agricultura, a expectativa é que sejam colhidas 60 milhões de toneladas dessa oleaginosa no ano que vem, ante 47 milhões na safra passada.

Desde maio, quando foi anunciada uma super-safra de soja nos EUA, os preços caíram 40%. Em 2004, a remuneração do fazendeiro chegou a US$ 16 a saca, mas pode baixar para US$ 10 ou US$ 11 em 2005. Por isso, a redução de custos é ainda mais imperativa. E, nesse campo os transgênicos seriam imbatíveis. No plantio de soja convencional são gastos R$ 307,10 o hectare, enquanto a transgênica sai por R$ 66, segundo cálculos expostos na Comissão de Agricultura da Câmara pelo deputado Luis Carlos Heinze (PP-RS).

Daí a atração que os produtores, em especial os gaúchos, têm pelos grãos modificados. Afinal, mais de 90% dos 3,5 milhões de hectares cultivados abrigam soja transgênica. "Se o governo não editar (a MP), quebra o Estado do Rio Grande do Sul", diz Tião Viana.