Título: Os laboratórios públicos avançam nas pesquisas
Autor: Iolanda Nascimento
Fonte: Gazeta Mercantil, 22/11/2004, Indústria & Serviços, p. A16

O Brasil tem 18 laboratórios públicos, seis com áreas de pesquisa, segundo a Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Oficiais do Brasil (Alfob). Entretanto, produção e formulações de medicamentos baseados em moléculas conhecidas tem sido a principal vocação dessas áreas. O presidente da Alfob, Carlos Alberto Pereira Gomes, também presidente da Fundação Ezequiel Dias (Funed), laboratório público de Minas Gerais, disse que os estudos de substâncias ativas é um movimento recente. "Estamos aprendendo a fazer", afirmou Gomes.

Assim como na Furp, todas as iniciativas dos laboratórios públicos vão em direção da descoberta de novos fármacos para doenças negligenciadas ou de alto custo para o governo. O Instituto de Tecnologia em Fármacos (Far-Manguinhos), do Rio, tem cerca de 14 patentes depositadas de princípios ativos, mas ainda "não tem um fármaco que fala português", disse a presidente da entidade, Núbia Boechat. "Todos estão em estudos pré-clínicos, principalmente, os de toxicologia, uma das etapas mais importantes da pesquisa. Uma inovação mais concreta poderá surgir em dois ou três anos."

Segundo Núbia, transformar uma substância ativa em produto de escala é um desafio para o Brasil. Gomes observou que falta tradição no País, que decorre da carência de políticas públicas de incentivo. "Temos massa crítica, tecnologia e institutos de pesquisas. O grande problema é a produção em escala. E o Profarma é essencial para o desenvolvimento do setor. Não apenas como um canal de investimento, mas de garantia de mercado no futuro e, acima de tudo, um articulador das várias redes de pesquisas, instituições e empresas", disse Gomes.

O Far-Manguinhos deve finalizar o ano com investimento de até R$ 15 milhões em diversas pesquisas. São estudos de substâncias para malária, leishmaniose, tuberculose, entre outras doenças. Já a Funed desde 2003 coordena um trabalho de bioprospecção de princípios ativos de plantas do cerrado mineiro, em conjunto com a Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade Federal do Rio Grande do Sul, orçado em R$ 10 milhões. Os estudos devem demorar cerca de seis anos para os primeiros resultados.

O Laboratório Farmacêutico do Estado de Pernambuco (Lafepe) pesquisa atualmente cinco drogas inovadoras em parceria com universidades, instituições, incluindo internacionais, e indústrias farmoquímicas. O diretor técnico industrial do Lafepe e professor de tecnologia farmacêutica da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Pedro Rolin, disse que o estudo mais avançado, com quatro anos, é o da betalapachona, para o tratamento de câncer de próstata, princípio desenvolvido pela UFPE, em fase de testes clínicos. Seis instituições compartilham as pesquisas e cabe ao Lafepe os ensaios sobre as fórmulas farmacêuticas e a coordenação dos trabalhos. "Nenhum laboratório tem condições sozinho de criar uma nova droga no Brasil. A união é o único caminho para o crescimento desta área", disse Rolin.

Entre os estudos, o Lafepe pesquisa uma molécula para o tratamento da esquistossomose e está em entendimentos com francês Institut de Recherche pour le Développement (IRD) - também parceiro na pesquisa da betalapachona - para desenvolver formas farmacêuticas de uma droga para leishmaniose.