Título: Indústria automotiva defende política para estimular a reciclagem
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Fonte: Gazeta Mercantil, 27/08/2004, Meio Ambiente, p. A-6
A reciclagem na indústria automotiva é um tema ainda incipiente no Brasil, mas que deverá tomar maiores dimensões a partir da instituição de uma Política Nacional de Resíduos Sólidos, tema que já ocupa o governo federal, a indústria e diversos segmentos da sociedade. Embora a maior parte dos componentes de um veículo fabricado hoje seja reciclável, não existem dados consolidados sobre o que de fato é reaproveitado. As exceções são o alumínio - visto que a sucata tem alto valor no mercado reciclador - e os pneus inservíveis, por força de legislação.
Para Geraldo Rangel, presidente da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), o reaproveitamento mais efetivo dos componentes do veículo só deverá tomar corpo a partir de uma regulamentação federal, pois atualmente cada estado tem suas próprias normas, o que dificulta que a reciclagem de vários componentes ganhe escala. "E para haver reciclagem, é necessário que haja rentabilidade", coloca. A AEA promoveu um seminário ontem, em São Paulo, para avaliar como caminha a reciclagem de componentes automotivos no Brasil e traçar um possível cenário futuro.
Hoje, o setor de transportes é um grande consumidor de alumínio. Em 2002, foram produzidas 25 milhões de toneladas de alumínio primário e seis milhões de alumínio secundário no mundo todo. Destes, 30% foram consumidos pelo setor de transportes, que vem ganhando posições e deverá absorver 50% da produção nos próximos anos, devido à demanda por veículos de baixo peso específico, que são mais aerodinâmicos, consomem menos combustíveis e, conseqüentemente, emitem menos poluentes.
Os veículos produzidos no Brasil têm em média 45 quilogramas de alumínio - na Europa já são utilizados 95 kg/veículo, e nos Estados Unidos, 124 kg/veículo. O metal é utilizado na fabricação de peças estruturais, chaparias e interiores de veículos, nos pistões, motor, câmbio e transmissores, entre outras aplicações. Cerca de dois terços desses componentes são fabricados com alumínio secundário. O Brasil hoje recicla 250 mil toneladas de alumínio. Destas, 150 mil toneladas são usadas para produção de ligas secundárias, matéria-prima para produção de peças fundidas.
"A reciclagem de alumínio no Brasil é bem-sucedida. Os números oficiais de reciclagem estão aquém da realidade, pois a informalidade é muito grande", afirma Luís Alberto Lopes, gerente comercial da Metalur, produtora de ligas secundárias. A maioria dos carros, ao final de sua vida útil, acabam nos ferros-velhos, e os componentes de alumínio têm maior saída, pois a oferta de sucata de alumínio do mercado é inferior à demanda.
Combate à informalidade
A grande informalidade que impera na reciclagem brasileira é, em parte, fruto da falta de políticas governamentais e incentivos fiscais que dêem incentivo à atividade. Assim, nem todos os tipos de sucata têm a rentabilidade esperada pela indústria, a exemplo do que ocorre com o alumínio. "A reciclagem é fomentada por ações governamentais em todos os países em que é bem sucedida. No Brasil, é regida exclusivamente por forças de mercado", avalia Zilda Maria Veloso, coordenadora de qualidade ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Para que haja a rentabilidade esperada pelo setor produtivo, "é necessário o incentivo governamental para que o setor de reciclagem se fortaleça e novas frentes e tecnologias sejam criadas", avalia.
O governo federal defende que a Política Nacional de Resíduos Sólidos tenha um caráter mais abrangente, de modo que as regulamentações específicas - como já foi feito com pneus, pilhas e resíduos de serviços de saúde - sejam implementadas por resoluções ou decretos. Isso valeria para os componentes dos veículos. "Os plásticos são hoje o material com maior dificuldade para reaproveitamento. São vários tipos de plástico dentro de um mesmo veículo, muitas vezes fundidos e misturados a outros componentes", explica Zilda. Isso torna difícil para o reciclador informal separá-los de modo a se tornarem viáveis comercialmente. O problema seria amenizado se a indústria assumisse parte da responsabilidade pós-consumo.
Falta pneu
Estimativas apontam que ainda existem 100 milhões de pneus espalhados por aterros, terrenos baldios, beiras de estradas e fundos de rios, mas os avanços na legislação ambiental permitiram que o índice de reciclagem do material chegasse a 50% em 2003, quando foram reciclados 15 milhões de pneus.
A reciclagem de borracha no Brasil tomou força a partir da publicação da Resolução 258/99 do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), que passou a vigorar em 2001 e exigiu que as indústrias e distribuidoras de pneus reciclassem, a partir de 2002, 25% da produção anual; 50% em 2003 e 100% em 2004. Hoje, a produção anual de pneus está em torno de 49 milhões de unidades, segundo a Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (Anip), responsável pelo recolhimento dos pneus inservíveis, por meio de 63 ecopontos instalados em todo o País.
Desde 2002, já foram coletados perto de 269 mil toneladas de pneus. "O fenômeno curioso é que, à medida em que aumenta o número de ecopontos distribuídos pelo País, diminui a quantidade de pneus recolhidos", observa José Carlos Arnaldi, da secretaria executiva da Anip. O motivo é que existe um sem-número de aplicações para os pneus inservíveis, o que tem tornado difícil para a Anip recolher e reciclar todo o pneu recomendado pela legislação.
Hoje, a borracha proveniente da reciclagem do pneu encontra seu maior uso como combustível em cimenteiras. São dez em todo o País que operam com licença ambiental para usar o material em seus fornos. O Brasil tem ainda 550 quilômetros de estradas pavimentadas, em caráter de teste, com o asfalto que usa borracha reciclada em sua composição. Outros usos bastante difundidos são a incineração em caldeiras, construção de muros de arrimo, proteção em margens de rios e para a fabricação de artefatos de borracha.
"Não tem pneu suficiente para reciclar. Há pequenos passivos distribuídos pelo País, mas não há como chegar até esse material", explica Arnaldi. Outro dado interessante, levantado pela Anip, é que 46% dos usuários, ao trocarem um pneu, levam o inservível para casa. Entre os componentes automotivos, só alumínio e borracha são reaproveitados