Título: Gonzalez: a base do desenvolvimento é a distribuição de renda
Autor: Rosana Hessel
Fonte: Gazeta Mercantil, 24/11/2004, Nacional, p. A6
A necessidade de uma política de distribuição de renda de forma eficiente é crucial para o desenvolvimento de um país e essa política não pode ser interrompida durante a sinalização de crises. Essa é uma das teorias defendidas pelo ex-primeiro-ministro espanhol, Felipe Gonzalez, responsável pelo início do ciclo de desenvolvimento da Espanha, entre 1982 e 1996. "Uma economia que concentra riqueza e, antes de chegar a redistribuição atinge uma crise e segue concentrando riquezas, é uma economia que nunca será eficiente a médio e longo prazo", disse Gonzalez, que participou ontem, em São Paulo, do Fórum Internacional "Brasil 2015: oportunidades e desafios", realizado pelo grupo Odebrecht em comemoração aos 60 anos de fundação da corporação.
Gonzalez ressaltou que países desenvolvidos e os tigres asiáticos fazem essa distribuição de renda de forma direta e indireta, como por exemplo, por meio de investimentos em educação com forma de melhorar a qualidade do capital humano do país. "O capital humano é o diferencial de desenvolvimento de uma economia", disse.
Quando assumiu o governo da Espanha, Gonzalez lembrou que a renda percapita espanhola era de US$ 4,5 mil, e, quando deixou o governo depois de 14 anos, o rendimento por habitante deu um salto para US$ 15 mil. Segundo o executivo, o Brasil atual se parece com a Espanha no início de seu governo e ele disse que o País poderá ser uma economia cobiçada, pois não possui poucos recursos fiscais. "O volume do setor público é grande, mas a cadeia de distribuição é que é problemática. A reordenação do gasto público tem de ser o principal interesse do governo", disse, acrescentando que a educação é estratégica.
Com relação a 2005, Gonzalez está otimista e acredita que o Brasil deve crescer entre 4,0% e 4,5%. O ex-ministro não criticou a iniciativa do governo brasileiro em negociar no eixo Sul-Sul, com países como a Índia e a China. "Me parece extraordinariamente interessante que haja novos interlocutores que não a relação simplificada de Norte-Sul."
Na opinião do ex-ministro espanhol, a América Latina tem grandes condições de disputar investimentos externos e deve redefinir seu papel considerando a possível falta de energia na próxima década