Título: Brasil precisa definir o seu papel, diz FHC
Autor: Fernando Exman
Fonte: Gazeta Mercantil, 26/11/2004, Nacional, p. A4

O ex-presidente adverte que é preciso ousadia para não se perder a oportunidade da integração à economia global. O ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso criticou os acordos bilaterais que o seu sucessor Luiz Inácio Lula da Silva tem fechado, como os recentemente assinados com a China e a Rússia. "A idéia de fazer acordos tópicos vem em um quadro mais defensivo do que ofensivo. Nós temos uma política defensiva e eu acho que nós deveríamos passar para uma política ofensiva e tomar a decisão de nos integrar à economia global", afirmou.

Na avaliação de FHC, essa estratégia é conseqüência da ausência de uma definição na sociedade brasileira de qual é o papel que o País deve ter no cenário internacional. O Brasil ainda não sabe, dentro das suas definições estratégicas, se realmente está querendo entrar no grande jogo da competição global. Acho que deveríamos ter uma visão econômica mais clara para ganhar mais força e, então, podermos ter voz política", disse.

Para o ex-presidente, porém, essa não é uma falha apenas do atual governo. "Não estava claro no meu (governo) e também não estava claro antes. Toda hora nós vemos um pedido de proteção. Nós ainda temos medo. Há até razões para esse medo, mas temos que resolver, pois não vai ter muitas alternativas. Vamos ter que fazer acordos porque o mercado nacional é grande, mas insuficiente para a escala produtiva moderna."

FHC disse ainda que a demora nessas definições podem causar maiores problemas no futuro. "Nós não percebemos ainda que temos que tomar certas decisões e que elas no longo prazo serão fundamentais."

FHC concedeu entrevista coletiva à imprensa na sede da Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), após palestra a empresários.

O Tesouro Nacional acertou ao entrar no mercado comprando dólares para honrar parte da dívida externa a vencer, afirmou. Ele também apoiou o Banco Central (BC) na decisão de não definir nenhum alvo específico para a taxa de câmbio. "Não sei se existe um patamar ideal. Na atual conjuntura mundial, a moeda norte-americana está perdendo força, o que faz com que haja a valorização de várias moedas. A principal é o euro. Isso dificulta as exportações européias. A mesma coisa acontece conosco, mas em menor escala".

Cardoso disse que, após algumas alterações, o projeto das Parcerias Público-privadas (PPP) está agora no caminho certo. Afirmou que, no entanto, é preciso que o governo tome cuidado para que os projetos não se tornem uma privatização às avessas. "Nós não podemos tornar as PPPs o oposto da privatização. Na privatização, o Tesouro recebia dinheiro. Não se pode agora fazer com que o Tesouro dê o dinheiro para fazer a parceria. Tem que ser uma coisa equilibrada".

Para FHC, o fortalecimento das agências regulatórias será essencial para a construção de um ambiente favorável para que o capital privado atenda ao interesse público, uma vez que o Estado já não tem capacidade para garantir os aportes necessários. "Houve, no começo do governo Lula, críticas às agências regulatórias e uma certa indefinição. Isso atrapalha a vinda de capitais privados".

Setores do governo federal têm dado espaço demais aos movimentos que reivindicam a expansão da reforma agrária no País, afirmou. ¿Na medida em que o Ministério da Desenvolvimento Agrário às vezes parece dar força a um reivindicacionismo incessante, complica a possibilidade de se consolidar o que já foi feito", disse. FHC referia-se às declarações feitas quarta-feira pelo presidente do Incra, Rolf Hackbart, em palestra a integrantes do MST. Hackbart relacionou as mortes de trabalhadores rurais no País ao setor do agronegócio.