Título: Urgência da reforma agrária
Autor: Sérgio Prado
Fonte: Gazeta Mercantil, 30/11/2004, Opinião, p. A3

O agronegócio exportador não exclui o pequeno produtor. O problema do campo voltou a bater à porta de Luiz Inácio Lula da Silva nesta semana. As bandeiras foram embora do Planalto. Mas nem a leveza de um sábado é capaz de levar consigo a urgência em se resolver a questão da reforma agrária. Aliás, esta é uma promessa do dia da posse do presidente. Filtrados os excessos dos líderes dos movimentos de trabalhadores sem-terra, qualquer cidadão de bom senso é capaz de entender que essa luta é mais do que justa.

Setores do governo e fazendeiros de norte a sul do País têm de superar o mito de que o modelo do agronegócio exportador é incompatível com a pequena propriedade. O argumento de que soja só é viável em grande escala é frágil e hipócrita. Autoridades e empresários rurais que criaram essa tese pouco inteligente poderiam deixar seus jatinhos de lado e andar um pouco de carro pelo interior do Rio Grande do Sul, por exemplo.

Se tiverem boa vontade e espírito aberto, poderão absorver exemplos de gente que ganha dinheiro com soja e milho em 20, 30 ou 40 hectares. Em muitas comunidades, os pequenos produtores se unem em grupos para comprar as máquinas necessárias, o que lhes garante competitividade no mercado exigente.

Há ainda exemplos de agricultores que plantam soja e milho puxando arado a boi. Também ganham seu quinhão. Em reduzido espaço, criam vacas, fazem queijo, criam porcos, galinhas. Muitos descobrem a cada dia o mel, produto de gran-de apelo nos grandes centros do Brasil e do exterior. Diversificam e trabalham em associação, com um vizinho ajudando o outro na colheita.

Entra aqui o conceito da diversificação, pois a monocultura é nociva para qualquer povo sob todos os pontos de vista. Não tem segredo, faz séculos que funciona assim na Europa e em outros locais. Entretanto, o capitalismo agrário brasileiro ainda fecha os olhos para o óbvio ululante.

O Brasil tem espaço de sobra para conciliar a grande propriedade com a pequena. Claro que de nada adianta um pedaço de terra num descampado, sem assistência técnica, estrada, escola e saúde. Tem de ter também o crédito e onde essa produção será colocada. Para ordenar essas coisas foi criado até Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Experiências bem-sucedidas existem em todos os cantos, mas é urgente apressar o passo, sem conflitos ou panfletagens de lado a lado. É questão de interesse e vontade política, como gosta de afirmar em seus discursos o presidente Lula.

kicker: O Brasil tem espaço de sobra para conciliara grande propriedade com a pequena