Título: Paquistão quer negociar acordo com o Mercosul
Autor: Claudia Mancini
Fonte: Gazeta Mercantil, 01/12/2004, Internacional, p. A-8

País cresce a taxa de 6,5% ao ano e não deve renovar acordo com FMI. O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, pediu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que converse com os chefes de Estado do Mercosul para que se inicie a negociação de um acordo de preferências tarifárias entre o país asiático e o bloco sul-americano, com vista a um acordo de livre comércio. Como o assunto surgiu na conversa entre Musharraf e Lula, segunda-feira, foi colocado na última hora no comunicado conjunto dos governos divulgado após o encontro, em Brasília.

Musharraf, que sabe que o governo daqui está se aproximando dos de países da Ásia, como Índia e China, deixou ontem o Brasil e foi para Buenos Aires, numa viagem que inclui ainda México e Washington. Um dos objetivos da viagem é "dar a mensagem verdadeira do Paquistão", afirmou a este jornal o ministro das Relações Exteriores Khurshid Kasuri.

A imagem do país foi afetada por ter sido visto como aliado do Taleban, que governou o Afeganistão. Após os ataques de 11 de setembro, Musharraf decidiu mostrar-se um aliado dos EUA no combate ao terrorismo. Alguns estudiosos dizem que a decisão deveu-se ao fato de Islamabad ter considerado que com a queda do Taleban, poderia ficar numa posição arriscada frente a Washington e sofrer perdas de seus interesses no sudeste Asiático.

A mudança levou a um apoio de Washington ao país. O Paquistão e a Índia buscam também o fim do conflito na região fronteiriça de Caxemira, uma disputa de quase 60 anos. De acordo com fontes do governo brasileiro, os dois países tentam se acertar em boa parte para melhorar o ambiente para investimentos na região. Já há investimentos novos no Paquistão e, segundo um diplomata brasileiro, o ideal seria as empresas daqui se mexerem logo para atuar num mercado de US$ 70 bilhões que cresceu 6,4% no ano fiscal terminado em 30 de junho passado, e que deve crescer o mesmo no atual, segundo o governo paquistanês.

A tentativa de aproximação entre Nova Délhi e Islamabad traz benefício indireto para o Brasil, pois antes uma aproximação com a Índia, como Brasília esta buscando, poderia desagradar muito o Paquistão, e a aproximação com Islamabad poderia desagradar muito os indianos.

O ministro de Comércio do Paquistão, Humayun Akhtar Khan disse a este jornal que seu país quer diversificar os mercados com os quais comercializa. Um dos interesses dos paquistaneses é numa parceria com a Petrobras para exploração de petróleo e gás naquele país, onde há boas perspectivas para essa área.

Também há interesse, por exemplo, em compra de equipamentos para desenvolver a iniciante produção paquistanesa de etanol. Há também interesse em explorar a possibilidade de compra de máquinas para a indústria de couro e em parceria no setor têxtil, que responde por dois terços das exportações de US$ 14 bilhões ao ano do país. O Brasil, disse o ministro, poderia comprar materiais esportivos e médicos, além de poder comprar alimentos para ajudas humanitárias que presta. A corrente de comércio dos países é de US$ 77 milhões, sendo em torno de 95% de exportações brasileiras.

Ontem, Musharraf participou de um café da manhã com empresários, em São Paulo, último dia da visita ao País que começou no sábado. O Paquistão solicitou a visita.

O Paquistão tem passado por uma série de reformas e o acordo com o Fundo Monetário Internacional, que vence em dezembro, não precisará ser renovado, disse o ministro para o Comércio. O déficit fiscal do país está em 4% do PIB.

Segundo fontes do governo brasileiro, o Paquistão tem importância por sua influência na Ásia Central e por ser um porta de entrada e saída para países vizinhos que não têm acesso ao mar. Além disso, afirmou Khan, a parte ocidental da China, que faz fronteira com o país, está começando a se desenvolver e há ligação de transporte com aquela região. O Paquistão faz parte do G-20, grupo de países em desenvolvimento que briga pelo fim de barreiras ao comércio agrícola, na Rodada de Doha, e do qual o Brasil é um dos líderes.