Título: Desafio é ampliar negócios bilaterais
Autor: Akopov, Sergey
Fonte: Correio Braziliense, 14/04/2011, Polítca, p. 4

entrevista - Sergey Akopov

Embaixador da Rússia acredita ser possível melhorar a pauta comercial com o Brasil e considera positiva a pretensão nacional de uma vaga no Conselho de Segurança da ONU

Rosana Hessel

O embaixador russo no Brasil, Sergey Akopov, revela que ficou impressionado com as mudanças que ocorreram no país desde a primeira vez em que trabalhou como terceiro secretário da embaixada da extinta União Soviética, há 28 anos. Esta é a terceira missão dele em Brasília. A segunda, entre 1999 e 2003, ocorreu quando ele veio como ministro conselheiro, o segundo cargo na hierarquia da representação diplomática.

¿É impressionante ver como o Brasil mudou muito nesse período, com progressos nos aspectos político, econômico e social. O país é um exemplo de transição democrática¿, comenta. O diplomata acredita que existem muitas oportunidades de cooperação entre os dois países uma vez que o comércio bilateral tende a crescer e muito e as parcerias estratégicas entre os dois países podem ser desenvolvidas em várias setores como energia e financeiro.

Akopov defende ainda uma maior cooperação industrial dos dois países para que haja maior integração dos investimentos locais, de forma a criar empregos nos respectivos locais. Ele acredita que, com isso, será possível melhorar a pauta comercial, que ainda é composta por produtos primários em quase sua totalidade. A diversificação é um dos desafios apontados pelo diplomata. O embaixador considera positiva a entrada da África do Sul no Brics e acredita que isso ajudará na articulação política dos países membros. A seguir, os principais trechos da entrevista de Sergey Akopov concedida ao Correio.

O senhor pegou três momentos diferentes da história e da economia brasileiras desde o fim da ditadura. Qual a sua impressão sobre como era o Brasil naquela época e agora? Observei muitas mudanças. Peguei o processo de democratização, das Diretas Já. Durante todos esses anos, percebi o enorme progresso que o Brasil fez nesses anos em todos os aspectos, como econômico, social, político e do desenvolvimento do sistema democrático. O Brasil pode ser um exemplo para muitos países de transição democrática e de como uma nação pode, em condições de paz, se desenvolver em benefício de todas as camadas da sociedade. Pude observar com os meus olhos como a classe média cresceu durante esses anos e as menos favorecidas diminuíram em comparação com as demais.

A terceira reunião de chefes de Estado dos países do Brics começa hoje. O que se pode esperar desse encontro e como o senhor avalia a entrada da África do Sul? O encontro na China será marcado com a entrada de um novo membro desse grupo que é a África do Sul. Claro que o Brics não é uma organização econômica. É uma reunião de líderes de países emergentes para discutir um amplo leque de problemas políticos, internacionais, econômicos e buscar traçar os rumos do desenvolvimento da cooperação bilateral. A entrada da África do Sul é muito positiva. O momento é propício porque é de criação de um novo sistema de governança mundial, de reestruturação das relações econômicas internacionais. É importante ter mais um representante de peso para influenciar e defender os interesses do grupo.

Os relacionamentos do Brasil com os países do Brics são diferentes. A Rússia não tem a mesma intensidade de investimentos no país como a China. Como é possível aumentar o comércio bilateral, uma vez que ele é menor do que o Brasil tem com os chineses e com os indianos? Sim, as relações econômico-comerciais entre os países do Brics são muito diferentes. Cada nação tem seu histórico com o Brasil. Estamos muito satisfeitos com o desenvolvimento das relações comerciais entre o Brasil e Rússia, mas não estamos satisfeitos com o volume do intercâmbio (US$ 6 bilhões). Temos excelentes perspectivas para o futuro. Durante a visita de Luiz Inácio Lula da Silva ao presidente Dmitri Medvedev, no ano passado, foi assinado um plano de ação de cooperação estratégica que estabelece as prioridades nas áreas econômica, científica e comercial. Como estamos geograficamente distantes, ainda existe desconhecimento mútuo. Continuaremos trabalhando para que empresários e pessoas comuns conheçam melhor os dois países. O interesse já está aumentando e as empresas russas começam a investir mais no Brasil.

Em quais setores os empresários russos investem no Brasil? Diversos setores, como energia e siderurgia. O exemplo mais recente é do grupo OAO Mechel, que investiu em uma parceria com a Unipar para um complexo siderúrgico no Pará. Essa empresa tem planos de longo prazo para o Brasil, inclusive de construir um porto. A Gazprom (maior empresa de petróleo e gás da Rússia) está se instalando no Rio de Janeiro. Estamos ainda avançando na integração aérea entre os dois países. Daqui a um mês a Transair deve começar a operar voos regulares de Moscou ao Rio de Janeiro, sem escalas. Também existe um projeto conjunto na área de energia nuclear, considerada prioritária pelo plano de cooperação bilateral. Temos interesse em participar dos projetos de novas usinas no Brasil.

A balança comercial entre Brasil e Rússia é essencialmente composta por itens primários, como commodities agrícolas. Quais produtos industrializados têm potencial? Aviões para voos regionais, mas com capacidade para cerca de 50 passageiros. Mas nossa tarefa principal é desenvolver uma cooperação industrial mais profunda, na coprodução de mercadorias de alto valor agregado, gerando empregos. É o que buscamos. O comércio de commodities sempre vai existir. Devido ao clima, a Rússia não pode produzir como o Brasil, mas sempre vai precisar importar açúcar brasileiro. E a Rússia é forte na produção de fertilizantes e o Brasil precisa de grandes quantidades desse produto. Mas, para o futuro, devemos procurar algo mais.

O Brasil é muito desenvolvido na área financeira. Há uma aproximação dos dois países nesse setor? Sim. Essa é uma das áreas novas de desenvolvimento da cooperação mais recente. Os bancos centrais dos dois países se articulam para ver a possibilidade de utilização das moedas nacionais no intercâmbio comercial. Depois da visita de Lula à Moscou, no ano passado, um grupo de trabalho foi criado, mas ainda não se chegou a um mecanismo comum para essa mudança. O Brasil tem a experiência com a Argentina, que é pequena. A Rússia já tem experiências com a China e com a Índia, mas são diferentes.

Como o senhor vê o potencial da exploração do petróleo da camada pré-sal no litoral brasileiro? É importante também. A entrada da Gazprom no país se deve a isso. Vamos ver a empresa participar desse mercado, com suas tecnologias e também em parcerias. O Brasil precisa de petróleo do tipo que a Rússia produz, mais pesado, para administrar as refinarias, fazer uma mistura de petróleo mais leve com petróleo mais pesado. Há um potencial grande para a cooperação.

A Rússia apoia o Brasil para um assento permanente para o Conselho de Segurança das Nações Unidas? Achamos que o Brasil é muito bom candidato para o Conselho de Segurança ampliado. Mas sempre dizemos que, para chegarmos a esse momento, seria necessário um amplo consenso internacional para essa ampliação. Mas a candidatura do Brasil ao Conselho é muito positiva.

Como o senhor avalia a queda do dólar e a guerra cambial que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, tanto fala? A queda do dólar e do euro prejudica a competitividade de nossas economias. Sabemos muito bem sobre o problema que o dólar esta criando ao Brasil e temos o mesmo processo lá na Rússia com a valorização do rubro. Essa valorização é parecida tanto no Brasil quanto na Rússia. Isso faz com que a indústria perca competitividade e aumenta as despesas no comércio internacional.