Título: Só com reformas UE alcança os EUA
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Fonte: Gazeta Mercantil, 31/08/2004, Internacional, p. A-12

Para analistas, Alemanha, França e Itália poderiam aproveitar a recuperação para reduzir normas. A cada dia, a Europa perde posições para os Estados Unidos, em termos de competitividade, ao mesmo tempo em que os líderes da Alemanha, França e Itália, enfraquecidos por maus desempenhos nas últimas eleições, são incapazes de aproveitar-se da recuperação econômica, para reduzir impostos e o excesso de regulamentação vigentes em seus países. Sem conseguir acompanhar o ritmo de crescimento dos EUA na década de 1990, os líderes europeus adotaram, na reunião de 2000 em Lisboa, o projeto de transformar o bloco no que chamaram de "a economia baseada no conhecimento mais competitiva do mundo" até 2010. A UE conseguiu crescer mais do que os EUA só uma vez desde então: em 2001. A UE prevê um crescimento de 1,7% para 2004, contra os 4,2% dos EUA. Para 2005, a UE prevê que sua economia crescerá 2,3%, taxa inferior aos 3,2% estimados para os EUA.

O presidente americano, George W. Bush, que a partir desta semana concorre oficialmente ao seu segundo mandato, baseia sua campanha em uma economia que criou 1,24 milhão de postos de trabalho este ano e em uma taxa de desemprego que caiu para 5,5% em julho. A taxa de desemprego européia ficou inalterada, a 9% em junho, a mais elevada nos últimos três anos e meio.

"A não ser que os governos da UE comecem a fazer sua lição de casa, nunca conseguiremos competir com os EUA", disse Reinhard Kudiss, economista da associação industrial da Alemanha, sediada em Berlim, que representa 107 mil empresas, entre elas a Siemens e a DaimlerChrysler. "Os investidores estrangeiros nos julgarão pelo ritmo de nossas mudanças e não podemos ter mais anos de estagnação". Os planos do chanceler alemão, Gerhard Schröder, para reduzir os benefícios pagos aos desempregados, com a intenção de cortar gastos estão enfrentando protestos semanais nas ruas do país. Os trabalhadores franceses estão engessados pela semana de 35 horas. A Itália, país mais endividado da UE, prometeu reduzir de impostos, sem dizer como pagará por eles.

"Disparidade crescerá"

"Se continuarmos assim, a disparidade não diminuirá: crescerá", disse por telefone de Roma, Rocco Buttiglione, ministro para Assuntos Europeus da Itália, que será o Comissário da Justiça para a UE em novembro. "É preciso haver uma forte vontade política para que as reformas sejam realizadas e para que sejam feitos investimentos no futuro".

Desde o início de 1999, quando o euro foi lançado, o Dow Jones subiu 11% por cento. O Dow Jones Stoxx europeu perdeu 20%, no mesmo período. O crescimento da UE teve seu ritmo reduzido inesperadamente para 0,5% no segundo trimestre deste ano, no momento em que a retomada de exportações foi incapaz de gerar a criação de postos de trabalho e gastos dos consumidores. "Os governos simplesmente não têm escolha, a não ser continuar com as mudanças econômicas caso encarem o crescimento com seriedade", disse Thomas Mayer, economista-chefe para a Europa do Deutsche Bank de Londres. "Nesse ínterim, as empresas continuam concentradas nas operações de exportação. É isso que se faz quando as condições internas não são suficientemente boas".

Perdas Eleitorais

Os partidos de Schröder, 60, do presidente francês Jacques Chirac, 71, e do primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, 67, perderam apoio nas eleições de 13 de junho passado. Os social-democratas de Schröder tiveram o pior resultado desde a II Guerra Mundial em uma eleição nacional, com 23,2% dos votos, quando os eleitores protestam contra a taxa de desemprego e cortes nos benefícios. Na França, os aliados de Chirac obtiveram 37,4%, resultado inferior aos 41,6% da oposição, liderada pelos socialistas. O apoio para o partido de Berlusconi, o Forza Italia, caiu para 21%, oito pontos a menos que nas eleições gerais de 2001, o que enfraqueceu seu poder, no momento em que os parceiros de coalizão exigiam mais influência sobre a definição das políticas de Estado, entre as quais a lei das aposentadorias e os projetos para reduzir impostos.

Custos Trabalhistas

Os custos com mão-de-obra da Alemanha são seis vezes superiores aos do Leste Europeu, de acordo com relatório do instituto IW , de Colônia. A alíquota de imposto corporativo, a 37%, é quase o dobro da vizinha Eslováquia, que atualmente fabrica mais carros por habitante do que qualquer outro país do Leste da Europa. Para empresas alemãs, como a Siemens e a DaimlerChrysler, a única expansão possível está fora da Alemanha. Com a taxa de desemprego a 10,6%, o máximo que os trabalhadores podem esperar é manter seus empregos. A Siemens conseguiu aumentar de 35 para 40 horas a carga horária semanal em duas fábricas, sem pagar adicional, após ter ameaçado cortar 2 mil vagas nesses locais.

kicker: Líderes enfraquecidos têm dificuldades em reformular o mercado de trabalho