Título: Produtor recusa-se a abandonar lavoura de fumo
Autor: Neila Baldi
Fonte: Gazeta Mercantil, 08/12/2004, Agribusiness, p. B-12

Lucratividade de até R$ 8 mil por hectare faz com que o fumicultor resista a renunciar ao cultivo e atrai novos agricultores. Um caminho de terra, rodeado de grandes plantas de folhas verdes e largas. Assim é a zona rural do Vale do Rio Pardo (RS). Uma paisagem que não muda. Por vários quilômetros, pés e pés de fumo. O tabaco é o alimento dos descendentes de alemães que vivem na região. É da produção de fumo que 30 mil famílias de 22 municípios tiram seu sustento. Praticamente não há família no Vale do Rio Pardo que não tenha um integrante ligado ao fumo - na produção primária ou na indústria.

O Rio Grande do Sul é o maior produtor nacional de fumo, com 463,3 mil toneladas colhidas por 101 mil famílias em 342 municípios. E o Vale do Rio Pardo tem um terço da safra. A região depende economicamente da cultura, pois além da produção, existem 13 indústrias ligadas ao fumo instaladas ali. Com isso, o Produto Interno Bruto (PIB) per capita local é de R$ 12,5 mil, enquanto na zona sul do estado, por exemplo, é de R$ 7,8 mil, segundo dados da Fundação de Economia e Estatística (FEE).

Com uma renda mais alta, é difícil quem queira trocar a cultura por outra. Pesquisa da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc) mostra que, caso o fumicultor seja obrigado a deixar de plantar, a medida pode resultar em êxodo rural: 42,7% deles trocariam o campo pela cidade.

A maior parte dos produtores de fumo (36,7%) tem pequenas propriedades. O levantamento, realizado em agosto deste ano, mostra que a renda familiar do fumicultor é de R$ 29,7 mil, quase duas vezes maior que a daquele que não planta tabaco: R$ 15,8 mil. Entre aqueles que aceitariam cultivar outro produto, 56,7% dos entrevistados citaram o milho como alternativa.

Trocando milho por fumo

Mas há quem troque grãos por fumo. É o caso do município de Canguçu. Em cinco safras, a produção de fumo aumentou 106%, para 9,4 mil toneladas.

Há oito anos, o agricultor José Amaral arrancou os pés de milho e feijão para plantar fumo em uma área de 4 hectares. O negócio deu tão certo que, com o lucro, ele comprou outros 20 hectares de terra e um carro popular ano 2000. E o milho e o feijão, que um dia foram o negócio principal, hoje são cultura de subsistência para Amaral. Em sua propriedade, 16 hectares estão ocupados com mata nativa e reflorestamento; as árvores servem de lenha para as estufas que secam o fumo. "É uma alternativa de negócio, antes eu gastava muito e ganhava pouco", diz.

"O fumo se expande à medida que as outras culturas não dão retorno", afirma Geraldo Pegararo, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Canguçu. O município é conhecido como um dos maiores minifúndios do Brasil, com diversos assentamentos rurais e produtores cultivando milho, feijão, soja, hortaliças e frutas. Com a crise econômica vivida na região na década de 90, quando diversas indústrias de conservas fecharam, houve um grande êxodo rural. Nos anos 80, quase 84% da população de Canguçu vivia na zona rural. Em 2000, apenas 65% deles estavam no campo.

Trocando o fumo pelas frutas

A professora Virgínia Etgis, da Unisc, diz que é possível trocar o fumo por pomares de pêssego, laranja e figos ou hortaliças orgânicas, sobretudo em terrenos acidentados, onde seria muito difícil o cultivo de grãos.

"Plantar hortaliças e frutas faz parte da cultura da região, mas nunca foi usado como alternativa econômica", afirma. Segundo ela, meio hectare de pêssego orgânico rende até R$ 11 mil, enquanto com um hectare de fumo é possível obter até R$ 10 mil. Ambas alternativas mais rentáveis que os R$ 1,2 mil obtidos com o milho.

Virgínia diz que, ao contrário da zona sul do estado, no Vale do Rio Pardo a fruticultura é viável porque a demanda é abastecida por Porto Alegre, distante 150 quilômetros.

"Mas não dá para todo mundo plantar a mesma coisa, pois o preço cai", afirma Valmir Netto Wegner, gerente da Emater em Estrela. Segundo ele, ainda não existe estudo do governo do estado para a reconversão da cultura do fumo por outra. Mas o assunto terá de ser discutido porque o Brasil assinou a Convenção-Quadro para o Controle do Tabaco, proposta pela Organização Mundial de Saúde (OMS). O documento prevê a redução do consumo e da produção de tabaco. "Mesmo que se reduza a produção, o consumo não vai cair", afirma Cláudio Henn, presidente do Sindicato da Indústria do Fumo (Sindifumo). Segundo ele, a demanda tem aumentado cerca de 1% ao ano, apesar das restrições. Para Henn, o que pode ocorrer é o Brasil passar de exportador a importador de tabaco, perdendo US$ 1,5 bilhão em divisas, e o consumo de cigarro ilegal (contrabandeado) aumentar.