Título: Declínio do dólar pode reacender o protecionismo
Autor: Nivaldo Manzano
Fonte: Gazeta Mercantil, 09/12/2004, Nacional, p. A6
O comércio intrafirmas dos EUA reduziria em boa medida o efeito de uma desvalorização cambial. A admissão implícita, em 3 de dezembro, pelo secretário do Tesouro dos EUA, John Snow, de que seu país não tomará atitude alguma para interromper o declínio do dólar suscita a indagação sobre até que ponto o dólar poderá cair - e já se ouvem na praça palpites de que, em 2005, 1¿ deverá valer US$ 1,50.
Para os exportadores brasileiros, a "crise do dólar", que debilita a competitividade do real, poderá significar dificuldades adicionais, decorrentes do previsível recrudescimento do protecionismo norte-americano. A alusão ao protecionismo brota da constatação de que a crise não é clássica - o problema é gerado em boa parte por transações intrafirmas (empresas norte-americanas instaladas no exterior que exportam para os EUA).
"Houve época, no final da década passada e início da atual, em que os EUA podiam conviver com seu mega-déficit externo em paralelo com a política de dólar forte (lembra-se do euro a US$ 0,82 em 2001?), observa Fernando Pinto Ferreira, sócio-diretor da Global Invest. "Tal condição era possível pela ocorrência de três fatores que garantiam forte fluxo de capitais e, em conseqüência, um confortável financiamento externo para os EUA: juros elevados, Bolsa de Valores em forte alta e vigoroso crescimento econômico. Hoje, tal combinação não existe mais.
E Ferreira prossegue: "O que vemos por ora é a continuidade da queda do dólar. Sua extensão e velocidade dependerão de três fatores: o comportamento das taxas de juros nos EUA; a disposição dos bancos centrais para intervir no mercado de câmbio; e uma potencial valorização de moedas mais rígidas como o iene e, principalmente, o yuan".
Para muitos analistas, parece não haver dúvida de que os EUA já não podem protelar a correção do desequilíbrio e que esta implica desvalorização. Seria preciso, nesse caso, identificar quais serão os países dispostos a valorizar suas moedas em contrapartida. "Por ora, a tarefa está sendo dividida entre Europa, Austrália e Canadá. O problema é que as economias asiáticas, detentoras de grandes volumes de reservas e de títulos americanos relutam em valorizá-las (casos de China, Hong Kong, Taiwan e Cingapura), ou o fazem timidamente (Japão e Coréia do Sul). Me parece inevitável que tais países terão de flexibilizar seus regimes cambiais e absorver parte da tensão incidente sobre as economias que trabalham com taxas de cambio flutuantes", acrescenta.
Mas a lógica econômica implicada na queda do dólar não é a costumeira e não é a única, adverte ele. "O aspecto especulativo parece ser preponderante e visível através da crescente participação dos `hedge funds¿ (HF). Existem cerca de sete mil `hedge funds¿ somente nos EUA, com ativos totais superiores a US$ 1 trilhão e apostas nos mercados de derivativos maiores do que US$ 10 trilhões. Em um ano de baixo rendimento, como o de 2004, as estratégias dos fundos tornam-se mais agressivas, elevando o seu já tradicionalmente alto grau de alavancagem. Sabe-se, por exemplo, que os HF mantinham fortes posições no mercado de petróleo, sendo responsáveis por parte de sua forte alta recente. Depois de atingir quase US$ 60,00, vimos o preço do barril despencar em paralelo com a saída de grandes HF desse mercado. A atenção dos gestores quase imediatamente migrou para o mercado cambial, onde passaram a se posicionar de forma vigorosa na queda do dólar. Por ora, suas posições só não são maiores porque vão contra a moeda da principal potência econômica global. Fossem os EUA um país emergente, seriam alvo de um forte ataque especulativo".
Então, a pergunta: até onde o dólar poderá cair? A resposta, segundo Ferreira, está associada às expectativas dos investidores. "Em maio deste ano, uma conferência promovida pelo Institute for International Economics recolheu expectativas de que o financiamento externo dos EUA encontraria equilíbrio com a cotação do euro entre US$ 1,25 e US$ 1,45. Já estamos na metade do caminho (1 ¿ = US$ 1,34) e não há sinal de estabilização".
Quanto ao caráter singular do desequilíbrio econômico-comercial, Ferreira observa: "O grande risco deste mercado se revelará no momento em que ficar claro que a balança comercial norte-americana responderá de forma muito mais lenta à desvalorização cambial do que sugerem os livros textos ou a observação de processos de desvalorização cambial de outros países. Baseio meu argumento no fato de o déficit dos EUA ser estrutural, um processo que vem sendo "amadurecido" há mais de uma década. Esse processo tem como base a transferência de unidades de produção de grandes empresas dos EUA para países asiáticos, atraídas pelo custo menor de produção, resultante da combinação entre taxas de câmbio desvalorizadas, baixo custo da mão-de-obra e menor carga tributária. Hoje, são inúmeras as empresas ocidentais instaladas na Ásia que se dedicam a produzir e vender para o mercado norte-americano, o que gera acúmulo de superávits e de reservas cambiais nos países asiáticos e sucessivos déficits e aumento de endividamento externo nos EUA".
Em contrapartida - acrescenta Ferreira -, existe aí uma lei não escrita que determina que esse mesmo déficit seja financiado pelos asiáticos mediante a compra de títulos do Tesouro dos EUA. "Essa lei está ameaçada de ser descumprida. Vale lembrar que Japão, China e Taiwan são os três maiores detentores de papéis do governo dos EUA".
Segundo Ferreira, uma tal estrutura contábil e de comércio intrafirmas não abona a hipótese de que uma queda de 10% ou 15% no valor do dólar seja suficiente para estimular empresas norte-americanas a repatriar as suas unidades de produção. "Há uma enorme diferença de custo de produção entre as duas regiões. Nesse cenário, podemos esperar por um aumento do viés protecionista dos EUA quando se defrontarem com um recrudescimento do nervosismo no mercado, motivado pela percepção de que o déficit em conta corrente não responde adequadamente ao estímulo da desvalorização".
A conclusão de Ferreira é que se pode estar diante de um processo de perda de hegemonia do dólar. "Mas não se engane: continua a ser pouco provável que a moeda norte-americana venha a perder a posição de principal meio de troca nos próximos anos. Repito: o dólar está perdendo a hegemonia, não a liderança".
A perda de hegemonia é perceptível, segundo Ferreira, na realocação atual de portfólios: investidores públicos e privados têm reduzido o risco de sua exposição em moeda norte-americana em benefício de outras moedas. "Dado o tamanho das posições mantidas por esses investidores, qualquer movimento tem o poder de causar grande instabilidade no mercado. Por ora, a instabilidade está restrita a marolas cambiais, mas sua continuidade tem efeito inevitável sobre outros mercados, principalmente os de taxas de juros. Temo que a queda do dólar continuará a nos assombrar por longas semanas, mantendo-se no centro das preocupações econômicas e financeiras globais", conclui.