Título: Saldo deste ano fica acima de US$ 32 bilhões, diz a Funcex
Autor: Lívia Ferrari
Fonte: Gazeta Mercantil, 02/09/2004, Nacional, p. A-6
Retomada do mercado interno afeta mas não muda o superávit projetado. Mesmo com possível crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) acima de 4% este ano, o Brasil deverá encerrar 2004 com saldo na balança comercial acima de US$ 32 bilhões, consolidando um novo recorde, maior que os US$ 24,8 bilhões de 2003. Segundo os especialistas da Fundação Centro de Estudos de Comércio Exterior (Funcex) e da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB), a retomada do consumo interno não terá impactos negativos sobre o desempenho do comércio exterior do País este ano.
As projeções dos dois organismos apontam para exportações entre US$ 93 bilhões e US$ 95 bilhões em 2004 (face aos US$ 73 bilhões exportados no ano passado) e importações variando de US$ 61 bilhões a US$ 63 bilhões (acima dos US$ 48 bilhões registrados em 2003).
"No acumulado dos últimos 12 meses (até agosto), o superávit comercial já atinge US$ 31,6 bilhões", disse Fernando Ribeiro, economista-chefe da Funcex. "Os embarques até o final deste ano resultarão de operações que já foram contratadas ao longo dos últimos meses", acrescentou José Augusto de Castro, vice-presidente da AEB, descartando a possibilidade de redirecionamento de vendas em favor do mercado doméstico em recuperação. Ele disse que, no entanto, há uma exceção à regra: as exportações brasileiras de aparelhos celulares, que registraram, até julho último, queda de 26% em receita (vendas totais de US$ 710 milhões), na comparação com igual período do ano anterior, "num comportamento nítido de desvio de vendas para o mercado interno com demanda firme".
Sustentadas na expansão observada de 20% no comércio mundial este ano, as exportações brasileiras crescerão 30% em receita, 20% em volume (índice de `quantum¿) e 10% em preço médio, "numa conjugação positiva de todas as variáveis", disse Ribeiro. Pelas suas projeções, as exportações brasileiras continuarão a crescer em 2005, mas em ritmo abaixo de 20% - menos acentuado que em 2004, em função, principalmente da esperada estabilização dos preços das commodities mais exportadas pelo Brasil. Este ano, até julho, as cotações das commodities agropecuárias e das carnes já acumulam elevação de 29%.
Esgotamento da capacidade
Para o especialista da Funcex, a atual polêmica em torno de esgotamentos da capacidade instalada de produção da indústria brasileira ainda não afeta a disponibilidade de exportações em 2004. "As vendas externas do País crescerão 10% em volume este ano", frisou Ribeiro. Ele disse, porém, que, alguns poucos setores - siderurgia, borrachas, calçados e têxteis - apresentam, até julho, crescimento nos volumes exportador abaixo de 10%, e, portanto, aquém da média geral. Os volumes exportados de produtos siderúrgicos estão crescendo 4,5% este ano; os de petróleo refinado, 1,7%; borracha, 5,5%; e calçados e têxteis, 9,5%. Porém, houve valorização de 18% nos preços médios das exportações de siderúrgicos este ano, o que mais que compensa, em receitas cambiais, o tímido crescimento do volume vendido de aço.
Outros importantes setores industriais mostram este ano expansão nas quantidades embarcadas muito acima da média: máquinas e tratores (65% de alta no volume exportado), equipamentos eletrônicos (29%), automóveis (42%) e químicos (39%). "Estes não enfrentam restrições de volume de oferta externa e interna", disse Ribeiro. José Augusto de Castro, da AEB, faz as contas: restam 84 dias úteis até o final do ano. "Trabalhando com a atual média diária de US$ 385 milhões em exportações, chegaremos na última semana de dezembro com mais US$ 32,4 bilhões, o que, somado aos US$ 61,35 bilhões apurados até agosto, totalizará US$ 93,7 bilhões."
Mas, para ele, o grande destaque este ano são as vendas para a Argentina, que já somam, até agosto, US$ 4,7 bilhões, com alta de 78% sobre o mesmo período de 2003. Enquanto isso, as importações brasileiras de mercadorias argentinas, no valor de US$ 3,4 bilhões até agosto, cresceram somente 15,7%. Pelas projeções da AEB, as exportações brasileiras para a Argentina ultrapassarão US$ 7 bilhões em 2004, acima do recorde de US$ 6,7 bilhões de 1997. O superávit comercial do Brasil com a Argentina acumula US$ 1,2 bilhão nos primeiros oito meses do ano (no mesmo período de 2003 houve déficit de US$ 394 milhões).