Título: O "investment grade" ainda demora para chegar
Autor: Edna Simão
Fonte: Gazeta Mercantil, 02/09/2004, Finanças & Mercados, p. B-1
Mesmo com a melhora dos indicadores econômicos, o Brasil continua sendo visto pelas agências de classificação como um local de elevado risco para os investidores estrangeiros. Muitos economistas acreditam que nenhuma alteração foi feita porque as agências de rating precisam de um prazo maior para verificar se as conquistas do governo Lula da área econômica são sustentáveis. Outros dizem que está havendo uma injustiça para com o País.
O professor Simão Davi Silber, da USP, está otimista e acredita que o Brasil caminha para o grupo dos países considerados "investment grade" - ou seja, de baixo risco, o que convida ao investimento. Para Silber, se o PIB crescer 3,5% ao ano e o superávit primário for mantido em 4,25% por três anos consecutivos, a relação dívida/PIB cairá para algo abaixo de 50% no final de 2007.
A relação dívida/PIB abaixo de 50% é um dos indicadores analisados pelas agências de rating. Outro é a relação dívida externa sobre as exportações. Atualmente, o total da dívida equivale a 2,3 vezes o montante das exportações. Segundo o professor da USP, aos poucos o quadro vai mudar, por causa do desempenho favorável das vendas externas.
Este ano as exportações podem passar de US$ 90 bilhões. A previsão de Silber é de que este número salte para US$ 100 bilhões em 2005 e US$ 120 bilhões em 2006. Com isso, a corrente de comércio do país (soma entre as exportações e importações) deverá atingir US$ 200 bilhões no final do governo Lula. Isto vai contribuir para menor volatilidade da taxa de câmbio, o que abrirá a possibilidade de o Banco Central reduzir os juros.
O presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda, concorda que o País caminha para ingressar no grupo "investment grade" em dois ou três anos. Ele ressalva que as elevadas taxas de juros acabam engessando a relação dívida/PIB, que era de 55,3% em julho. "O BC está cumprindo a partitura, que é a de subir os juros para cumprir as metas de inflação", afirma Lacerda. Em sua opinião, o regime de metas de inflação deve ser ajustado e combinado com uma taxa de câmbio flutuante.
Segundo o presidente da Sobeet, as agências de risco estão sendo resistentes e têm uma visão limitada da economia brasileira. "Há preconceito em relação ao passado do país", diz Lacerda.
O presidente nacional da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais (Apimec), Humberto Casagrande, considera compreensível a demora das agências em melhorar a classificação de risco do país. "Tudo está indo bem. Mas os investidores e agências de rating precisam de um histórico maior", acrescenta.