Título: Seguradoras buscam títulos privados
Autor: Denise Bueno
Fonte: Gazeta Mercantil, 13/09/2004, Finanças & Mercados, p. B-2

Executivos acreditam que a maior oferta de papéis aumentará a liquidez, fator primordial. A política de investimentos das seguradoras começa a mudar aos poucos com a queda das taxas de juros e com o incremento de emissões de debêntures neste ano. Até o início de setembro, foram emitidos R$ 5,2 bilhões em títulos, o mesmo volume captado durante os doze meses de 2003, e já há pedidos para outros R$ 2 bilhões, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM).

Segundo dados da Federação Nacional das Empresas de Seguros Privados e de Capitalização (Fenaseg), as seguradoras, empresas de previdência e de capitalização investiram R$ 106 bilhões em julho. Desse valor, R$ 77,4 bilhões referem-se às provisões técnicas e R$ 29,4 bilhões ao patrimônio líquido das empresas. As provisões técnicas tiveram incremento de 33,22% em julho desse ano em comparação a julho de 2003, quando o saldo era de R$ 58,1 bilhões. "A previsão é de que as reservas ultrapassem R$ 160 bilhões até 2009", comentou Samuel Monteiro, diretor administrativo e financeiro da Bradesco Seguros e Previdência, grupo segurador que detém um quarto do faturamento do setor e 40% do total das reservas.

De acordo com dados da Superintendência de Seguros Privados (Susep), dos R$ 77,4 bilhões de ativos garantidores das reservas, R$ 63 bilhões, ou 80%, estão em títulos públicos; 17,5% em títulos privados; 2% em renda variável; e menos de 1% em imóveis. Dos recursos livres, Monteiro acredita que mais de 50% estão aplicados em títulos públicos, 10% em imóveis e o restante retornando para a própria atividade.

Como se vê, até julho os títulos públicos lideravam a preferência das seguradoras, mesmo com a queda de dez pontos percentuais da taxa Selic, que saiu de uma média de 26% no primeiro semestre de 2003 para 16% entre janeiro e junho de 2004. "Apesar da redução, as taxas praticadas ainda estão muito elevadas", disse Casimiro Blanco Gomez, diretor de controladoria da Porto Seguros. A Porto tem um comitê de investimento, que se reúne semanalmente para definir as políticas de investimentos que orienta a DTVM do grupo a aplicar a carteira de R$ 2,4 bilhões do grupo. Desse valor, apenas 7% está em renda variável e o restante em renda fixa, praticamente títulos federais. "Em títulos privados temos cerca de 3%", informou Gomez.

As seguradoras têm de investir num porto seguro para poder devolver ao segurado o que prometeram. "Como é inviável fazer estoques de carro para garantir a devolução de veículos para os segurados de automóvel ou de medicamentos para os segurados de saúde, precisamos ter um retorno financeiro que nos permita garantir o pagamento do bem no futuro", explicou o executivo da Bradesco, que tem R$ 35 bilhões em ativos garantidores e R$ 3,3 bilhões em recursos livres do patrimônio. Desse valor, R$ 33 bilhões estão em renda fixa, sendo R$ 30 bilhões em títulos públicos, 82% do total, e R$ 3 bilhões em títulos privados. As aplicações em ações somam R$ 2 bilhões.

"Estamos pesquisando para aumentar nossos investimentos em títulos privados, mas ainda não há nada definido. Precisamos de papéis que tenham boa liquidez, como os títulos públicos", disse Hélio Novaes, vice-presidente executivo da SulAmérica Seguros, associada ao ING. As reservas totais da SulAmérica chegam a R$ 1,8 bilhão, com praticamente tudo investido em títulos do governo.

A Real Seguros também tem pesquisado títulos privados para colocar em carteira. "As seguradoras, como investidoras institucionais, provavelmente buscarão aumentar suas participações em títulos privados se a tendência de queda das taxa de juros se mantiver. Temos olhado muito as debêntures. A oferta aumentou bastante, realmente, mas ainda é um movimento muito tímido", disse Maurício Accioly, presidente da Real Seguros, que tem uma carteira de investimentos de R$ 2,6 bilhões, sendo parte administrada pela asset do banco e parte por uma equipe da seguradora. "A própria seguradora faz a administração em razão da facilidade de gerenciar. A carteira é composta basicamente de títulos públicos. É mais barato ter um departamento interno".

A Mapfre Seguros conta com uma carteira de R$ 700 milhões. "Nossa política é bem simples. Segue a cultura da matriz. Ou seja, é conservadora porque a atividade de seguros já é de risco", disse Eliseo João Viciana, diretor de investimentos da Mapfre DTVM. "Não podemos investir em qualquer títulos que tenha classificação de agências nacionais e internacionais inferiores a A", acrescentou.