Título: Hora de consolidar o crescimento
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Fonte: Gazeta Mercantil, 15/09/2004, Opinião / Editorial, p. A-3
As atenções do País estão concentradas, hoje, na decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) sobre a taxa básica de juros (Selic) que vigerá nos próximos 30 dias. Empresários, lideranças sindicais, economistas, parlamentares de diferentes siglas partidárias e mesmo integrantes do primeiro escalão do governo federal repudiaram a sinalização de alta da Selic contida na ata da reunião de agosto do Copom.
As preocupações do Copom quanto ao comportamento da inflação pecam pelo exagero, como afirmamos no editorial publicado ontem. Em nosso entender, mais grave do que o risco de inflação, não confirmado pelos índices disponíveis, é a ameaça de uma interrupção no processo de recuperação da economia, se a taxa Selic for elevada mesmo que levemente.
O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, rompeu meses de silêncio a respeito da política de juros do Banco Central e voltou, há dois dias, a manifestar suas divergências em relação à atual política econômica, centrada na ortodoxia monetarista. Em pronunciamento feito por ocasião do 1 Fórum de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo, o ministro afirmou não enxergar pressão inflacionária que justifique um aumento da Selic. Ele argumentou que os preços que vêm pesando no índice oficial de inflação refletem as oscilações dos alimentos e das tarifas públicas e não são capazes de comprometer a meta oficial. Convém lembrar que no primeiro semestre do ano passado, quando o Copom elevou a Selic para o patamar de 26,5% ao ano, Dirceu advertiu a Fazenda e o Banco Central que essa medida daria um "cavalo de pau" na economia.
Falando no Rio de Janeiro, o vice-presidente da República, José Alencar, voltou a assestar as baterias contra os juros altos. "Devemos nos conscientizar de que o Brasil precisa alterar esse regime de juros", afirmou Alencar, que também é empresário.
Por sua vez, o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Luiz Marinho, fez coro a Dirceu e Alencar ao propor que o controle da inflação seja feito não mais pelo aumento dos juros, mas por meio de um choque de investimento capaz de estimular a produção. Em linha com opositores da atual política econômica, Marinho afirmou não aceitar "a lógica de que o aumento dos juros controla a inflação. O crescimento atual da economia se deu por meio de um enorme sacrifício e queremos sustentar esse crescimento", afirmou." Ainda na opinião do presidente da CUT, se o Banco Central optar pela elevação dos juros para controlar a inflação, "o Brasil pode cair numa armadilha e ver o crescimento econômico paralisado".
Além disso, como assinalou o economista Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, em entrevista à Gazeta Mercantil, a situação externa desde 2003 melhorou muito para o Brasil. As exportações continuam em crescimento e o superávit comercial caminha para US$ 31 bilhões. Poderíamos acrescentar que o Brasil apresenta um superávit em conta corrente de US$ 6,23 bilhões de janeiro a julho, mais 55,12% em relação ao mesmo período do ano passado (US$ 4,01 bilhões).
Verifica-se, portanto, que o Brasil tem disponibilidades para importar mais, principalmente para o reequipamento do seu setor produtivo. É muito provável que, nos próximos anos, se a economia continuar se aquecendo, o Brasil não poderá manter superávits comerciais dessa envergadura. A estimativa para 2005 é de superávit comercial de US$ 26 bilhões.
Mas um superávit menor não prejudicaria as contas externas, desde que as exportações se mantenham em expansão e para isso é preciso superar os gargalos da infra-estrutura, o que requer investimentos. E esse é justamente o objetivo das Parcerias Público-Privadas (PPP), que o governo está tão empenhado em fazer aprovar pelo Congresso Nacional.
Vale também notar que o investimento direto bruto vem apresentando uma reação. Em julho, a entrada bruta de investimentos foi de US$ 2,018 bilhões, elevando o total deste ano a US$ 9,334 bilhões.
Naturalmente, à medida que a economia se acelerar, o País tenderá a atrair mais investimentos externos. Como têm afirmado empresários estrangeiros, as multinacionais consideram o Brasil como uma boa plataforma para a exportação, principalmente para os países do Cone Sul. Mas, basicamente, a razão principal para que o capital estrangeiro venha para o Brasil é o mercado interno, que, depois de anos de estagnação, vem mostrando saudáveis sinais de crescimento.
Por todas essas razões, torna-se imperioso baixar a taxa de juros e os "spreads" bancários, pois estamos certos de que isso pode ser feito sem detonar um processo inflacionário indesejável para toda a sociedade.
kicker: A razão principal paraa vinda do capital estrangeiro é o mercado interno, que, depois de anos de estagnação, dá sinais de aquecimento