Título: O consumidor moribundo
Autor: Flávio A. Corrêa
Fonte: Gazeta Mercantil, 15/09/2004, Opinião, p. A-3
Há 62 milhões de brasileiros com renda mensal inferior a R$ 500. A população miserável (renda mensal inferior a R$ 500) cresceu 69% nos últimos 20 anos. Já somos 62 milhões de brasileiros nessa situação, o que provavelmente nos assegura lugar destacado, senão a medalha de ouro, nessa olimpíada às avessas, que celebra nossa capacidade de fabricar pobreza
A classe média - eufemismo que no Brasil se usa para classificar famílias com renda mensal acima de R$ 1 mil - despencou de 42,53% da população para 36,03%, o que significou a expulsão de 11 milhões de pessoas dessa classe social em apenas duas décadas.
Até os "ricos", famílias que ganham mais de R$ 2,5 mil mensais (pouco mais de US$ 800), caíram de 28,39% da população para 21% em 2002.
Estudo do professor Waldir Quadros, da Unicamp, baseado na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) do IBGE, publicado pelo Diário de São Paulo no dia 19 de agosto, é chocante. Inclusive para ele, que se diz acostumado a trabalhar com esses números: "Se o País não crescer (e muito!) nos próximos 20 anos, caminhamos para uma realidade ainda pior".
Um pouco antes disso, o secretário municipal do Trabalho de São Paulo, Márcio Pochmann, alertava: "Para absorver o estoque de desempregados (que se estima superior a 10 milhões, mais os 2,5 milhões de trabalhadores que chegam ao mercado todo ano), o Brasil teria de crescer 5% ao ano até 2010" (Revista Época, 12 de julho de 2004).
Para mim, que não sou economista nem matemático, os números não fecham, o que me faz temer que pior que a realidade só a perspectiva...
Se é verdade que 1% do PIB significa a geração de 300 mil empregos, então como vamos criar 2,5 milhões de novos postos de trabalho e ao mesmo tempo diminuir o alarmante estoque de desempregados crescendo 5% ao ano? Teríamos de crescer muito mais do que isso. Será que é possível? É.
Enquanto surfamos alegremente na onda da vigorosa reativação do crescimento econômico mundial e comemoramos nossos 3,5% ou 4%, o que já é muito melhor do que o PIB negativo do ano passado, a Venezuela está crescendo 12%, a Argentina quase 10%, o Uruguai mais de 8%. Nós mesmos já registramos crescimentos espetaculares em décadas passadas. Os tigres asiáticos também conseguiram.
Então qual é a receita?
A óbvia, a mesma de sempre, que todo mundo diz que sabe mas ninguém pratica: a) baixar impostos; b) reduzir juros; c) diminuir drasticamente o tamanho da famigerada "máquina estatal", que só tem inchado; d) estancar o brutal confisco da renda nacional, que atingiu níveis sem precedentes, por 72 diferentes tributos mais os juros escorchantes que somos obrigados a pagar; e) devolver o dinheiro do povo para o povo, sob a forma de investimentos em infra-estrutura, geração de trabalho e renda - mesmo que o FMI e o "mercado" tenham de "negociar" e esperar um pouquinho; f) implodir de vez a nefasta "Escola do Rio", tão bem analisada por André Araújo em sua imperdível obra editada pela Alfa Omega em 1998. "Escola" que, por incrível que pareça, continua sendo a bíblia liberal ortodoxa das autoridades hoje de plantão, infernizando e empobrecendo a nação em velocidade de Fórmula 1; g) acabar com a burocracia, que cria dificuldades para vender facilidades, transformando o Brasil num país onde tudo o que não é proibido é obrigatório, cerceando a liberdade e afogando na complicadíssima legislação tributária e no difícil acesso ao crédito nossa capacidade de empreender. A mortalidade prematura de empresas causou nos últimos 12 anos, só no Estado de São Paulo, prejuízos superiores a R$ 200 bilhões, eliminando cerca de 7 milhões de postos de trabalho.
Em síntese: a solução é criar novos consumidores para que o País possa crescer de forma sustentada e promover a tão almejada justiça social. Mas o Brasil, ninguém sabe por que nem com que finalidade, continua fazendo o contrário, sem dar-se conta de que é impossível criar nação forte com povo fraco. Pode?
kicker: A solução é criar novos consumidores para o país crescer de forma sustentada