Título: Chineses vivenciam estouro da bolha
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 03/04/2008, Finanças e Mercados, p. B1
Xangai, 3 de Abril de 2008 - Um ano atrás, investidores chineses como Guan Ling estavam em polvorosa. Em dois anos, os preços das ações de companhias chinesas haviam subido mais de 500%, provocando um verdadeiro frenesi bursátil em todo o país. Quando os especialistas advertiam periodicamente em relação à possibilidade de uma bolha, os preços baixavam por algum tempo, e depois voltavam a subir de forma vertiginosa, quebrando recordes e estimulando outra corrida tresloucada de investidores para a compra de ações. "O mercado estava enlouquecendo", diz Guan, 49, que alguns anos atrás fechou sua imobiliária para investir em ações em tempo integral. "Todo mundo comentava a respeito de quanto havia ganho, quanto pretendia investir, e quais as ações que haviam se valorizado 20 vezes, ou até 30." Isso foi no ano passado. Recentemente, o índice composto de Xangai despencou 45% da alta de outubro. O primeiro trimestre deste ano, encerrado na última segunda-feira com vendas maciças, foi considerado o pior trimestre para o mercado. De repente, milhões de pequenos investidores, que costumavam lotar as corretoras de valores, onde passavam o dia todo jogando cartas, negociando ações, comendo e torcendo por suas apostas com outros apostadores e aposentados, agora sentem-se deprimidos e zangados. "Ultimamente, minha família briga muito", diz Zhang Liying, 55, uma camareira de hotel aposentada, que juntamente com o marido investiu todas as economias do casal na Bolsa. "Meu marido me disse para vender; eu queria continuar mais um pouco. Agora, meu marido me xinga, diz que fui burra porque perdemos as economias da família." Si Dansu está ainda mais arrasada, mas ela culpa o governo. "Dediquei toda a minha vida ao país. Depois de me formar, fui para o campo, e trabalhei como engenheira em uma fábrica de Xangai até me aposentar. Dez anos atrás, investi quase todas as minhas economias e o fundo de pensão na Bolsa. Mas agora estou sem um tostão. Todas as minhas ações se foram." Em outras partes da Ásia, a situação é igualmente péssima, senão pior. Na Índia, os preços das ações despencaram 31% em Bombaim; no Japão, caíram 31% e no Vietnã, outra economia florescente, nada menos que 53%. Em Bombaim, investidores furiosos queimaram o retrato de um membro da comissão de valores, e outros estão em prantos em Cidade Ho Chi Minh, no Vietnã. "Alguns deles choraram", comenta Nguyen Quang Tri, 74, gerente aposentado de uma indústria de cimento, que esta semana visitou uma corretora na capital vietnamita. "Tenho meu próprio patrimônio, mas a maioria das pessoas tomou dinheiro emprestado do banco." A grave situação do mercado começou quando, no final do ano passado, as preocupações se avolumaram com a inflação nacional e com a crise financeira norte-americana. Agora, embora a economia da China esteja crescendo ao seu ritmo mais acelerado dos últimos dez anos, os preços das ações bateram no fundo, esmagando os pequenos investidores. Segundo alguns especialistas, a queda da Bolsa constitui uma grave ameaça ao crescimento da economia real do país. Mas teme-se também que uma crise prolongada possa reverberar através dos mercados financeiros da China - principalmente porque um grande número de corporações transferiu recursos de forma agressiva, às vezes sigilosamente, para apostar na Bolsa. Empresas também lucram Segundo algumas estimativas, de 15% a 20% dos lucros registrados no ano passado por empresas listadas na Bolsa de Xangai, que não estão envolvidas em bancos nem em financeiras (que costumam investir em ações), foram gerados nas negociações com ações. Companhias com operações primárias, como venda de eletricidade ou casacos esportivos, negociavam à noite, na esperança de aumentar seus ganhos. "As companhias tinham muito dinheiro excedente", comentou Jing Ulrich, analista de mercado do JP Morgan em Hong Kong. "E grande parte deste dinheiro vazou para o mercado acionário. Mas as grandes empresas acompanhavam o pequeno investidor. O JP Morgan estima que, no fim do ano passado, 150 milhões de pessoas na China investiam na Bolsa de seu país. O que representa talvez uma pequena fatia da população chinesa de 1,3 bilhão de habitantes, mas constitui um enorme grupo de novo investidores, e provocou o surgimento de uma nova fonte de descontentamento popular e de um novo estilo de vida: o investidor compulsivo. Chen Donghao é um dos convertidos. O jovem de 22 anos, que se formou recentemente na universidade, é hoje uma presença constante em uma corretora de Xangai. Em abril de 2006, quando ainda estudava desenho artístico na faculdade, sua família entregou-lhe cerca de US$ 70 mil para investir na Bolsa. Era o momento ideal para fazê-lo. "Quando comecei, a Bolsa estava em torno de 1.700", ele disse, observando que ontem, apesar da queda, o índice composto de Xangai ainda está em 3.400. "Ganhei muito dinheiro. Então, no começo deste ano, decidi abrir um restaurante. Gostaria de abrir uma rede de restaurantes famosos em Xangai." Donos de lojas, corretores de imóveis e até empregadas e vendedores ambulantes de melancias tornaram-se apostadores na Bolsa de Valores chinesa. Uma nova versão do hino nacional está se espalhando pelo país no ano passado, e começa: "Levantai! Vós que não abriste uma conta! Derramai vosso ouro e prata no mercado aquecido!" E prossegue: "A nação chinesa encara os tempos mais loucos. O grito veemente dos nossos povos será ouvido!" As pessoas atenderam. Em Xangai, as corretoras armaram gigantescos telões eletrônicos e começaram a atrair grandes multidões, inclusive muitos aposentados, felizes por passar o dia todo hipnotizados pela visão do aumento dos preços das ações. Em algumas corretoras, os salões foram divididos em salas de tamanho pequeno e médio, onde os investidores acampam praticamente, desde a abertura até o toque do sino de encerramento do pregão, com suas maletas do almoço, tricô, baralho e jornais para se sentirem em casa.(Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 1)(The New York Times)