Título: Democracia ainda é promessa de solução das mazelas sociais
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Fonte: Gazeta Mercantil, 09/04/2008, Nacional, p. A4
A democracia está estabelecida em todos os países latinos, como uma promessa de solução para graves problemas sociais que enfrentam. Mas para o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), José Miguel Insulza, a atuação de governos democráticos não é garantia de estabilidade para investimentos na região. Caso estas questões não sejam resolvidas pelos governos em breve, como espera a população, a tendência é que as nações apelem para líderes com propostas mais fortes. Segundo Insulza, esta desconfiança afasta investimentos no continente. A discussão esteve em pauta no sábado, segundo dia do 11 MIT Sloan Latin America Conference, em Boston. Insulza ponderou que os latinos aprenderam com crises anteriores e o gerenciamento macroeconômico melhorou, mas os sistemas financeiros não estão totalmente sólidos e os de impostos são instáveis. "Até quando o crescimento continuará? Se a economia mundial começar a diminuir, vamos diminuir também? São muitas incertezas", acrescentou. "A América Latina espera que o governo vá resolver tudo, mas na maioria das vezes ele não é moderno ou eficiente nem tem muita transparência. Logo, pode falhar e levar todos a preferirem líderes mais fortes." Insulza lembrou que a criminalidade é um problema sério ¿ 75% dos seqüestros do mundo acontecem na América Latina. A solução seria investir em educação. Mas o continente só participa com 2,9% do investimento mundial no campo de pesquisa e desenvolvimento. Só 0,4% da renda do governo é destinado ao ramo no continente. Em um dos painéis do dia, o de Empreendedorismo, Santiago Bilinkis, CEO da Officenet Argentina, também criticou o fato de que há poucas pessoas altamente qualificadas na AL e empenhadas na produção de novas soluções tecnológicas que revolucionem o mundo. A maioria apenas tenta sobreviver. Se um modelo tem sucesso, há centenas de cópias: "Precisamos ensinar os latinos a pensar grande", completou Bilinkis. Maria Beatriz Nofal, presidente da Agência Nacional de Desenvolvimento de Investimentos da Argentina, acredita que a integração do continente é uma das principais chances de desenvolvimento. "A Argentina tem crescido 8% ao ano, uma das maiores taxas na América Latina, e é o mercado mais importante para o Brasil. As exportações internas do Mercosul cresceram 713% entre 1990 e 2007 e a Argentina é responsável por dois terços das importações intra-regionais.Para Beatriz, alguns desafios são apoiar a internacionalização de companhias locais. O BNDES deveria investir mais em projetos comerciais argentinos que lhe interessem, segundo a empresária. "Os países no Mercosul têm força macroeconômica para superar a crise nos EUA. O Brasil tem mais integração com o mercado internacional de capitais e pode agüentar melhor ainda" antecipa Beatriz. Johnatan Rotberg, professor visitante no Media Lab do MIT, acrescentou que é preciso estrutura para proteger os investidores pequenos. Já André Tanure, CEO da BrasilLog, que moderou outro painel, apontou a burocracia como o principal desafio: "Começar um negócio no Brasil leva 150 dias, na Austrália são apenas dois e na Argentina, 32. No Brasil, 50% das empresas fecham antes de completar o primeiro ano. O País ocupa a posição 122 de 178 economias no mundo na facilidade de fazer negócios", lamentou. A importância das empresas com negócios no continente produzirem produtos adaptados à cultura local, com preços mais acessíveis, foi listada por vários palestrantes. Marcos Troyjo, diretor geral do JB, destacou também a necessidade de os latinos investirem em um "business grade", e não apenas em um "investment grade". "Precisamos ter um plano de negócios, adaptar nosso modelo de comércio para termos a capacidade de unir universidades e empresas, investir em inovação e conhecimento, ter ferramentas de capital e conhecimento para crescer por adaptação criativa. Não crescemos só por inovação", destacou Troyjo. Eduardo Braga, governador do Estado do Amazonas, defendeu que é preciso dar valor econômico a áreas de floresta protegidas, ou elas serão desmatadas: "O desflorestamento, a longo prazo, prejudica a capacidade de negócios em todo o mundo." (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 4)(Cristine Gerk - Especial para a Gazeta Mercantil )