Título: Governo não tem estoque para controlar inflação de alimentos
Autor: Baldi, Neila
Fonte: Gazeta Mercantil, 10/04/2008, Agronegocio, p. C7
São Paulo, 10 de Abril de 2008 - Em um ano de preços domésticos e internacionais mais elevados, com pressão dos alimentos sobre a inflação, o que governo não tem o que fazer. Os estoques estatais dos principais produtos agrícolas estão abaixo de um mês e meio de consumo - volume considerado ideal pelo mercado. A maior quantidade de produto nas mãos do governo atualmente é de arroz. Segundo dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), são 1,4 milhão de toneladas do cereal - quase 40 dias de consumo. No primeiro trimestre do ano, os alimentos representaram cerca de 40% da inflação no período. Mas analistas de mercado acreditam que a partir do segundo semestre os preços agrícolas tendem a cair, diminuindo o impacto no custo de vida do brasileiro. "A pressão que tinha de ocorrer foi no primeiro trimestre", diz o economista Fábio Silveira, da RC Consultores. Ele lembra que a pressão dos produtos agrícolas não é um fato apenas no Brasil, mas mundial, por conta da valorização das commodities. Mas acrescenta que em abril, o índice da consultoria já registra queda (-2,6% na primeira semana do mês). No entanto, na comparação com o mesmo período do ano passado, o índice é 31,9% maior. O diretor de Gestão de Estoques da Conab, Rogério Colombini, diz que a estatal não tem como recompor os volumes porque os valores atuais dos principais produtos agrícolas estão acima do preço mínimo de garantia e a legislação não permite que o governo faça compras acima deste valor. "Faz tempo que o governo não tem estoques estratégicos porque é uma política muito cara", afirma Silveira. "Com certeza o fato de os estoques estarem baixos é uma maneira de pressionar a inflação. Obviamente, grande parte da pressão inflacionária vem de fora, uma vez que desde o ano passado as commodities agrícolas estão em patamares mais elevados", José Carlos Hausknecht, sócio da MB Associados. Na sua avaliação, milho e arroz exercerão alguma pressão, assim como a carne bovina. Segundo dados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a inflação em março foi de 0,48& - Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No acumulado do ano ficou em 1,52%. Segundo a economista do IBGE, Irene Machado, os alimentos contribuíram com 40% do resultado do mês, principalmente pela pressão do trigo, óleo de soja, leite, ovo e tomate (ver matéria abaixo). Os números da instituição incluem também alimentação fora de casa. De acordo com ela, em março, entre os alimentos, o pão francês teve maior importância, com contribuição de 0,05 ponto percentual, seguido do leite (0,03 ponto percentual). Segundo a RC Consultores, em março, o trigo - que pesa no preço do pão francês - registrou alta de 9,2% e, na primeira semana deste mês, 7,2%. Já o leite teve leve queda no mês passado (-0,2%) e começa abril com alta de 5%. Os ovos, cujos preços subiram 5,9% no mês passado, têm desvalorização de 16,7% neste mês. E o tomate teve aumento de 83,1% em março e 5,4% em abril. No acumulado do ano, os alimentos registram aumento acima da inflação, de acordo com o IBGE: 3,04% ante a 1,52%. Nos últimos 12 meses, estes produtos tiveram variação de 11,22%, também acima da inflação no período, que foi de 4,73%. (Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 7)(