Título: Relatório da OMC prevê desaceleração no comércio
Autor: Hessel, Rosana
Fonte: Gazeta Mercantil, 18/04/2008, Internacional, p. A12
São Paulo e Genebra (Suíça), 18 de Abril de 2008 - A Organização Mundial do Comércio (OMC) divulgou ontem um relatório sinalizando desaceleração tanto do comércio quanto da economia global. O informe sobre as perspectivas de crescimento para 2008 da entidade sediada em Genebra e com 151 países membros prevê que as exportações mundiais crescerão apenas 4,5% neste ano, ante aos 5,5% registrados em 2007 e os 8,5% em 2006. Em relação ao desempenho do Produto Interno Bruto (PIB) mundial, as estimativas de crescimento são de apenas 2,6% para este ano e para o próximo, dando seqüência para a curva descendente dos últimos anos. Em 2006, o PIB global cresceu 3,7%, um leve aumento em relação aos 3,3% registrados no ano anterior, e voltou a desacelerar em 2007, registrando alta de 3,4%. No entanto, "essas estimativas poderão ser revistas para baixo até o quarto trimestre deste ano diante das incertezas sobre a evolução da crise financeira mundial neste momento", informou o economista chefe da OMC, Patrick Low, durante a divulgação do estudo. Ele culpou as turbulências financeiras que, segundo ele, ainda não tenham afetado a economia real, continuarão a causar desequilíbrios. Os dados da OMC ficaram abaixo das últimas estimativas mas não chegam a ser pessimistas, analisou o professor de Economia da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (Eaesp/ FGV) de São Paulo, Ernesto Lozardo. "Eles demonstram que há um cenário menos favorável às relações comerciais entre os países em desenvolvimento e os desenvolvidos." Na opinião do professor da FGV, há uma grande chance de o mundo entrar em uma recessão entre este ano e o ano que vem, nem que seja por um trimestre. Segundo ele, essa desaceleração na economia e no comércio mundial deve-se, em grande parte, à retomada da inflação mundial diante do aumento dos preços dos alimentos e da demanda global. Lozardo ressaltou ainda que a tendência agora é de que as taxas de juros voltem a subir mais, especialmente diante do refluxo de moeda dos países em desenvolvimento para os desenvolvidos. "Além disso, os países desenvolvidos tenderão a retirar os investimentos dos países em desenvolvimento para equilibrar as contas internas", acrescentou. De acordo com Lozardo, há dois movimentos nesse sentido: o aumento dos investimentos de países emergentes nos países desenvolvidos e o fortalecimento do euro em função de uma aposta maior na moeda européia diante da desvalorização do dólar. O professor fez um alerta para o risco de uma crise cambial em países cujo crescimento da produção estão vinculados a apenas uma matriz energética - o petróleo -, e, com isso, a Índia, é o país mais vulnerável na opinião do professor. "A Índia tem um grande déficit em conta corrente há mais de 20 anos, e depende muito do petróleo, logo o risco de uma crise cambial é muito maior", explicou. Emergentes em destaque O relatório da OMC indicou ainda que essa desaceleração no comércio global só não foi maior porque os países em desenvolvimento estão amortizando o impacto do enfraquecimento da economia mundial. A América do Sul - principalmente o Brasil que responde por mais de um terço do comércio da região - e os países do Leste Europeu - oriundos da antiga União Soviética e liderados pela Rússia -, registraram os maiores índices de crescimento nas importações, que ficaram acima da média global e próximas a 20%. Enquanto isso, os países desenvolvidos da Europa Ocidental e da América do Norte, leia-se Estados Unidos, registraram crescimento nesses itens bem abaixo da média mundial tanto na importações quanto nas exportações. Por enquanto, a OMC calcula que o crescimento econômico nos mercados desenvolvidos seja de 1,1% e fique acima de 5% nos países emergentes. O diretor geral da OMC, Pascal Lamy, defendeu ontem a conclusão ainda este ano da Rodada Doha, de negociações para a liberalização do comércio global, para ajudar a dar estabilidade e certeza à economia mundial. "Em um momento em que a economia está em águas turbulentas, a conclusão de Doha pode ser uma forte âncora para a economia mundial", destacou. De acordo com dados do relatório da OMC, a China conseguiu ultrapassar os EUA como o maior exportador de mercadorias no mundo, tomando sua posição de segundo lugar, enquanto a Alemanha continua liderando o ranking. O Brasil ficou em 23 lugar. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 12)(, AFP e EFE)