Título: Apesar de preços contidos, lucro da Petrobrás é alto
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 14/05/2008, Editoriais, p. A2

14 de Maio de 2008 - cape 1,C om um resultado bem diferente do esperado pelo mercado, a Petrobras anunciou anteontem um lucro líquido de R$ 6,025 bilhões no primeiro trimestre de 2008. Este valor é 68% maior ao registrado no mesmo período do ano passado. Na comparação com o quarto trimestre de 2007, ocorreu expansão de 37%, quando o lucro líquido alcançou R$ 5,053 bilhões. O conjunto de resultados deste primeiro trimestre, no entanto, causou uma certa espécie nos analistas. A diretoria financeira da estatal atribuiu o bom desempenho da companhia a fatores como o aumento de vendas, a recuperação de preços e a queda de despesas financeiras e operacionais. O corpo técnico da empresa também reconheceu o peso da menor valorização do real frente ao dólar, que implicou redução de R$ 1 bilhão nas perdas cambiais. Na verdade, o real se valorizou menos no primeiro trimestre deste ano, em torno de 1% na relação com o dólar, ante a valorização de 4% entre janeiro e março de 2007. Vale lembrar no julgamento desse desempenho da estatal que, apesar de não ter conseguido reajustar os preços da gasolina e do diesel no primeiro trimestre, a estatal obteve aumento de 8% no preço médio dos produtos comercializados, atingindo US$ 93,90 na estimativa de barril. É verdade que essa valorização ainda é menor que a média de custo do barril de petróleo no mercado internacional ao longo do primeiro trimestre, que atingiu cerca de US$ 96. Essa recuperação pelo aumento nos preços do querosene de aviação e da nafta. A diretoria da estatal procurou não entrar na questão da perda de receita pelo atraso nos reajustes da gasolina e do diesel mas ficou difícil esconder a relevância desse atraso na análise do desempenho financeiro da companhia. No balanço da Petrobras é possível observar que a manutenção dos preços contidos nos dois principais produtos comercializados (gasolina e diesel respondem por mais da metade da receita da empresa) pela área de abastecimento acumularam prejuízo de R$ 576 milhões no primeiro trimestre deste ano, ante um lucro de R$ 2,124 bilhões no mesmo período de 2007. É essa área que responde pela comercialização de petróleo desde a produção e seu refino em combustíveis. Essa mesma área também é responsável pela compra de derivados no mercado externo, quando a produção brasileira refinada não é suficiente para atender ao mercado interno. Por outro lado, a estatal anunciou que os ganhos antes de juros, impostos, depreciação e amortização atingiram R$ 13,8 bilhões neste trimestre, quando alcançaram R$ 11,02 bilhões no primeiro trimestre de 2007. Esta foi uma nova surpresa para aos analistas pois o mercado esperava lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortizações de R$ 12,6 bilhões. Esta é uma importante medida do fluxo de caixa da empresa. No entanto, a diretoria financeira da estatal afirmou que o lucro operacional avançou porque cresceu a produção e aumentaram os preços, assegurando que a companhia trabalha para a redução dos custos operacionais. A rigor, é preciso lembrar nesse ponto que a Petrobras acabou desde o ano passado com os gastos extraordinários destinados às contribuições para o fundo de pensão dos funcionários da Petrobras, um fato que beneficiou muito os resultados financeiros do primeiro trimestre deste ano. Em 2007, as perdas com os aportes no fundo Petros foi superior a R$ 1 bilhão. A surpresa do mercado com o resultado da Petrobras também se deveu ao fato de que neste trimestre o Brasil deixou de ser auto-suficiente na produção de óleo e derivados. A estatal divulgou que as importações da empresa foram maiores que as exportações de janeiro a março deste ano. O motivo, segundo a diretoria da estatal, é que nesse período ocorreu uma forte pressão de compra de diesel para geração de energia para atender à operação integral das térmicas. Foi necessário o uso desse combustível porque a produção e importação de gás foi insuficiente para atender a toda a demanda. O óleo combustível foi obviamente usado para poupar água nas hidrelétricas, fato que só será evitado quando a produção de gás nacional deixar o diesel como última opção assim que as térmicas forem obrigadas a operar. Não foi o caso desse primeiro trimestre, e mesmo desse modo o custo dessa decisão não afetou diretamente o desempenho financeiro da estatal. Com os dados divulgados do primeiro trimestre, a diretoria da Petrobras assegurou que o futuro da companhia é otimista porque com o novo reajuste da gasolina e do diesel deve ocorrer uma "folga de caixa". Essa folga será destinada a investimentos segundo a direção da empresa. Desse modo, apesar de todas as dificuldades operacionais da estatal no primeiro trimestre, a companhia lucrou 68% a mais que no ano passado, gerando a dúvida sobre quanto alcançaria esse lucro se tais dificuldades não fossem tão significativas. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 2)