Título: Japão quer recuperar nível de investimentos no Brasil
Autor: Nair Keiko Suzuki
Fonte: Gazeta Mercantil, 16/09/2004, Nacional, p. A-6

Primeiro-ministro japonês reúne-se com empresários em São Paulo. O técnico de futebol Zico, o "sorridente atleta" Vanderlei Cordeiro de Lima que se destacou na Olimpíada de Atenas e o sociólogo Gilberto Freyre foram citados pelo primeiro-ministro do Japão, Junichiro Koizumi, em seu discurso de agradecimento "pela calorosa boas-vindas" recebida pelo governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. O governador, da sua parte, elogiou a "sensibilidade e a agilidade intelectual" do primeiro-ministro, ao comentar sua visita.

Durante almoço para 226 convidados no Palácio dos Bandeirantes, ontem, Koizumi fez um longo discurso, no qual destacou o relacionamento econômico e social que une o Japão ao Brasil, lembrou detalhes das visitas feitas durante a sua permanência em São Paulo - como o reencontro com o primo Kenji Iryo e o sobrevôo aos canaviais na região de Ribeirão Preto -, ressaltou a cooperação que existe entre o Japão e a América Latina e fez comentários sobre o acordo comercial que ele assinará amanhã, no México, com o presidente Vicente Fox - "o primeiro em país latino-americano".

Em meio a empresários, banqueiros, diplomatas e artistas, Junichiro Koizumi circulou irradiando simpatia. Trajava um sóbrio terno cinza, com gravata azul-claro e seus cabelos, normalmente revoltos, estavam discretamente assentados com gel. Em sua homenagem, os guardanapos ganharam um anel com origami em formato de cegonhas, nas cores vermelho e preto. O "tsuru", como a ave é chamada, simboliza a longevidade. No cardápio do almoço, a homenageada foi a artista plástica Tomie Ohtake, autora do quadro Cinza e Vermelho, de 1977, escolhido para a capa. Tomie era uma das 16 personalidades que compunham a mesa do primeiro-ministro.

Entre os 226 convidados, o economista Teiji Sakurai, presidente da Japan External Trade Organization (Jetro) - organização do governo japonês que tem por objetivo fomentar o comércio exterior e os investimentos entre o Japão e outros países - era um dos mais sorridentes. Sakurai vislumbrou a possibilidade de, com a visita de Junichiro Koizumi ao Brasil, aumentarem os investimentos japoneses no Brasil, o que ele vem defendendo há muito tempo.

Sakurai chamou atenção para o esfriamento das relações econômicas entre os dois países no estudo "Como atrair capital estrangeiro para o Brasil", elaborado por ele neste ano. Em 50 anos, de 1951 a 2001, os investimentos japoneses no Brasil somaram US$ 14 bilhões, cita o estudo. No ano passado, o volume foi de US$ 1,37 bilhão. De 1986 a 1990, os investimentos japoneses no Brasil corresponderam a 17% do total aplicado no exterior: em 2002 caiu para 2,7% e, em 2003, subiu para 10,6% "graças à entrada da Mitsui na Companhia Vale do Rio Doce (CVRD)", ressaltou Teiji Sakurai.

"O grupo Mitsui é precursor nos investimentos japoneses no Brasil", afirmou Masao Suzuki, vice-presidente do Departamento de Projetos de Transporte da Mitsui Brasileira, também presente do almoço. Ele disse que, só no ano passado, o grupo investiu, no Brasil, US$ 800 milhões na Valepar, ao adquirir a parte da Caemi.

O empresário Antônio Ermírio de Moraes, presidente do Conselho de Administração do Grupo Votorantim, achou o discurso do primeiro-ministro do Japão "muito propício" a que surjam novos investimentos japoneses no Brasil e também de investimentos brasileiros no Japão. Ele atribui a escolha do México como primeiro país da América Latina a fechar o acordo comercial pelo fato de estar localizado na fronteira com os Estados Unidos e manifestou sua crença de que um acordo semelhante será assinado também com o Brasil.

O presidente da União da Agroindústria Canavieira de São Paulo (Unica), Eduardo Pereira de Carvalho, comentou que a visita feita por Koizumi às Usina São Martinho em Pradópolis, no interior de São Paulo, "foi um empurrão importante" para tornar viável a compra, pelo Japão, do álcool combustível brasileiro. O economista Paulo Yokota, da Ideias Consultoria, disse que para a retomada dos investimentos japoneses no Brasil houve muito pouco avanço em termos operacionais e frisou que faltam projetos de engenharia. "O Japão dispõe de muitas linhas de crédito, mas as regras da Basiléia e a Lei de Responsabilidade Fiscal não permitem dispor delas", disse Yokota, que ocupou cargos no governo brasileiro nos anos áureos dos investimentos japoneses.

Já a cineasta Tizuka Yamazaki, diretora do filme Gaijin, mostrou-se impressionada ao saber que, durante um sobrevôo de helicóptero, Koizumi havia chorado ao descer num campo de futebol e ser cercado por representantes da colônia japonesa que vieram do Japão e, com sacrifício, se fixaram no interior de São Paulo. "Espero que a demonstração dessa emoção por parte dele se traduza com a mesma intensidade no incremento da relação comercial entre os dois países", afirmou a cineasta.

Antes do almoço, Koizumi visitou o Mausoléu dos Pioneiros da Imigração Japonesa no Brasil, a Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e o Museu Histórico da Imigração Japonesa no Brasil. Do Palácio dos Bandeirantes, ele embarcou para Brasília, onde hoje cumpre uma extensa agenda que culminará com um encontro com ministros da área econômica e com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.