Título: Operações de crédito vão a R$ 1 trilhão
Autor: Monteiro, Viviane; Nascimento, Iolanda
Fonte: Gazeta Mercantil, 25/06/2008, Finanças, p. B1
25 de Junho de 2008 - O aumento da taxa básica de juros (Selic), entre outras medidas implementadas pelo governo desde o início do ano para conter a inflação, conseguiu desacelerar o ritmo de crescimento das operações de crédito em maio, mas, no entanto, não conteve ainda a sua forte trajetória de alta, mostram dados do Banco Central (BC) divulgados ontem. Desta vez, o grande impulsionador foi o empréstimo às empresas. O volume total de crédito emprestado pelo sistema financeiro brasileiro alcançou R$ 1,044 trilhão - ou 36,5% do Produto Interno Bruto (PIB) no mês passado, a maior relação desde 1995, quando atingiu 36,8% -, um crescimento de 2,6% no mês e de 32,4% em 12 meses. O volume das operações com recursos livres, que podem ser alocados livremente pelos bancos, somou R$ 746,5 bilhões no período. Neste caso, os empréstimos destinados às empresas totalizou R$ 391,4 bilhões (26,1% do PIB), 3,3% mais que em igual mês do ano passado, 14% no ano e 39,8% em 12 meses; enquanto o crédito destinado às pessoas físicas mostrou menos vigor: R$ 355,2 bilhões (12,4% do PIB), 2,4% a mais que em abril, 11,8% de crescimento no ano e 32,1% nos últimos 12 meses. Para o chefe do departamento econômico do BC, Altamir Lopes, os números mostram uma certa "acomodação" das operações nos últimos dois meses, percepção compartilhada com a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). Nicola Tingas, economista-chefe da entidade, diz que essa desaceleração gradual nos empréstimos à pessoa física já era esperada. "O setor já vem percebendo uma redução nos negócios de maior valor. Agora, o forte crescimento foi no cartão de crédito. O endividamento das famílias pode estar batendo no limite", observou Tingas. A Febraban mantém a previsão de alta de 22,91% no crédito total para este ano, ante 27,26% de 2007. Philip Pastor Wagner, economista do Unibanco, informou que, mesmo tendo crescido menos em termos nominais (em abril foi de 34%) a expansão do crédito para pessoa física ficou dentro do esperado e a de pessoa jurídica, surpreendeu. "As concessões de crédito estão perdendo o fôlego em parte pelas medidas restritivas aplicadas pelo governo, em parte porque os bancos começam a mostrar preocupação com a capacidade de pagamento dos tomadores, mesmo que a inadimplência ainda se mantenha em taxas (subiu de 7,1% em abril para 7,3% em maio) não preocupantes, dentro do padrão", afirmou Wagner a respeito da desaceleração à pessoa física. O aumento da taxa Selic começa a surtir efeito no custo de captação de crédito. O juro do cheque especial subiu para 157,1% ao ano, taxa considerada "proibitiva" pelo chefe do departamento econômico do BC. É a maior desde agosto de 2003, quando era de 163,9%. O juro do cheque especial subiu 4,4 pontos percentuais em relação ao mês anterior, avançou 19 pontos entre janeiro e maio e esticou 16,8 pontos nos últimos 12 meses. "O cheque especial capta mais rápido o aumento da Selic", disse Lopes. A taxa média de juro praticada em todas as operações de crédito, para pessoas físicas e jurídicas, variou para 37,6% anuais em maio. Cresceu 0,2% em relação a abril, 3,8% no acumulado do ano e 0,4% nos últimos 12 meses. Entretanto, o juro à pessoa física foi atenuado pelo o fim da incidência da Tarifa de Abertura de Crédito (TAC), em abril, sobre o cálculo do custo efetivo do crédito, afirmou Lopes. Neste caso, o juro caiu de 47,7%, em abril, para 47,4% em maio. Houve queda de 1% nos últimos 12 meses. Porém, a taxa subiu 3,8% no acumulado do ano. Ainda sob o efeito da extinção da TAC, a taxa do spread bancário, diferença entre o que os bancos pagam nos investimentos e o que cobram na concessão de empréstimos, atingiu 24,5 pontos percentuais. Ou seja, caiu 0,5% em relação a abril e 1,5% nos últimos 12 meses. No acumulado do ano, entretanto, a taxa subiu 2,2%. Já o juro destinado às empresas cresceu de 26,3% para 26,9% anuais entre abril e maio. O percentual aumentou 4% no acumulado do ano e 2,6% nos últimos 12 meses. Lopes negou existir propostas no BC para inibir a concessão de crédito ao consumidor. Ele argumentou que a inadimplência continua estável e o Banco Central mantém a estimativa de chegar a 40% do PIB no fechamento deste ano. Mas as operações de leasing continuam elevadas, sobretudo para a aquisição de veículos, observou. Isentas da taxa de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), as operações de leasing às pessoas físicas cresceram 128,6%. Enquanto para as jurídicas o avanço foi de 86,9%. O prazo para o pagamento de veículos chegou a atingir 595 dias, o maior desde o início da pesquisa do BC. (Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 1)()