Título: Líderes preocupados com alta dos alimentos
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 02/07/2008, Internacional, p. A12
Tucumán (argentina), 2 de Julho de 2008 - Os líderes do Mercosul alertaram ontem sobre os riscos da especulação nos mercados de alimentos e lançaram críticas às novas normas de imigração da União Européia (UE). Na abertura da XXXV cúpula dos países do Mercosul, na província de Tucumán, os presidentes dos países membros do bloco - Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai - e dos associados se mostraram preocupados com as conseqüências da alta mundial dos preços dos alimentos. "A economia da especulação que estava restrita ao mercado financeiro, especificamente de crédito, começa a transportar-se para o mundo dos alimentos. Senhores do ramo financeiro passaram para o ramo dos alimentos", disse Cristina Kirchner, presidente da Argentina. "Antes, essas conseqüências afetavam os governos, com endividamento e fortes déficits. Hoje, são os homens de carne e osso, com o preço do pão, da carne, do leite." O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, junto com o presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez, também abordaram a crise dos alimentos e disseram que somente com mais integração regional será possível enfrentar o problema. "Nunca estivermos tão perto de resolver esse problema com nossas próprias forças. Creio que possamos dar as respostas de que todo mundo precisa", disse Lula. O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, reiterou seu plano de criar um fundo com dinheiro vindo do petróleo para gerar um programa de produção de alimentos. O Mercosul, que inclui dois dos maiores fornecedores globais de alimentos, é formado por Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai. A Venezuela está em vias de adesão e Chile e Bolívia são membros associados. Durante o encontro, o Brasil assumiu a presidência pro tempore do bloco. A reunião de presidentes do Mercosul acontece em meio à tensão entre o Peru e a Bolívia, devido aos polêmicos comentários do presidente boliviano, Evo Morales, de que existe uma base militar norte-americana no país. A Bolívia também enfrenta uma crise política interna, com Estados que querem independência. Os presidentes do Mercosul declararam que vão mandar observadores para as eleições bolivianas. A Argentina vive um conflito com o setor agropecuário, devido a impostos sobre as exportações de grãos. A cúpula selou o pacto entre o bloco e a União Aduaneira da África Meridional (Sacu, na sigla em inglês), além de iniciar as negociações com Turquia e Jordânia. O segundo grande ponto que juntou os líderes do Mercosul é o repúdio às novas normas européias que permitem, a partir de 2010, a detenção de imigrantes ilegais por até 18 meses além de uma eventual proibição do retorno a países da União Européia (UE). A presidente do Chile, Michelle Bachelet, afirmou que "deve-se exigir que a UE dê um tratamento justo para os imigrantes, especialmente os latino-americanos" devido à absorção dos europeus que vieram à região. Os presidentes disseram que tentaram avançar com as tentativas de diálogo para moderar a legislação européia. Lula demonstrou preocupação com "o vento frio da xenofobia que sopra mais uma vez falsas respostas aos desafios da economia e da sociedade". A reunião do Mercosul fez um apelo ao mundo industrializado para que reduza significativamente seus subsídios à agricultura e elimine gradualmente os subsídios à exportação. Lula disse que pedirá explicações ao Grupo dos Oito (G8), durante a cúpula no Japão, países mais industrializados sobre sua responsabilidade nos problemas de inflação generalizada e no aumento dos combustíveis e dos alimentos. "Por culpa dos outros não podemos voltar atrás naquilo que conquistamos nos últimos oito anos em nossos países." (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 12)(Reuters)