Título: Valorização do real ainda...(pág.A-5)
Autor: Lívia Ferrari e Cristina Borges Guimarães
Fonte: Gazeta Mercantil, 17/09/2004, Primeira Página, p. A-1

Ele não vê riscos de queda de exportações até o final do ano por conta do câmbio. "Até porque o mercado interno está apenas no começo de retomada, não havendo espaços para redirecionamento de exportações", disse o executivo da AEB, acreditando, contudo, que R$ 3,00 por dólar é o patamar ideal de equilíbrio do câmbio para exportações e para importações.

Para o consultor financeiro Amir Khair desde maio de 2003 o câmbio oscila entre R$ 2,80 e R$ 3,00, atingiu o pico de R$ 3,20, mas na essência está estável. "O real está mais estável que o dólar e o euro, graças a força das exportações brasileiras. As exportações superam as importações, que são responsáveis pelo controle da inflação mais que a Selic", disse Khair, apostando que o câmbio não irá se apreciar mais e manterá a faixa de variação em torno dos R$ 2,90 já que as exportações continuam e continuarão bem. "O Banco Central consegue intervir e impedir a sobrevalorização, mas por enquanto a considera positiva para inibir a inflação."

O economista do Unibanco, Mauricio Oreng, também não considera o câmbio sobrevalorizado e caminha para um valor mais justo. "O BC pode deixar o câmbio caminhar mais, sem agir como no passado quando fazia intervenções toda vez que o patamar de R$ 2,90 era atingido", disse Oreng. Para ele, a apreciação cambial pode ter um efeito positivo sobre as expectativas de inflação, que hoje é a variável considerada mais importante pelo BC.

"As exportações podem até sofrer alguma redução, mas o saldo está confortável e tende a atingir em doze meses R$ 32 bilhões", disse Oreng. A expectativa do Unibanco é de que o câmbio encerre o ano em R$ 3,00. "A tendência de curto prazo é de apreciação, mas no médio prazo ele deprecia pelo cronograma de amortização da dívida mais carregado nos próximos meses", disse Mauricio Oreng.

Já na opinião do professor de economia da PUC-SP e presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda, "há sobrevalorização sim". "É uma temeridade para o Brasil um câmbio abaixo de R$ 3,00, porque temos que sustentar o nível de exportações e a atratividade do país para desenvolver projetos de substituição de importação e desenvolvimento tecnológico." Para o economista, a valorização artificial traz resultados de curto prazo para a inflação porque inibe os choques de custo. Entretanto, Lacerda adverte que os ganhos são menores que as perdas.

"Com a sobrevalorização o Brasil perde a competitividade e não consolida o ajuste externo que garantiria a redução da vulnerabilidade e o crescimento sustentado." Lacerda considerou que existe uma "combinação equivocada" de política econômica. "Os juros altos estimulam a valorização do câmbio e o aumento das captações também. Por isso é importante que o Banco Central tenha um papel mais ativo para evitar a valorização futura. Sem a atuação do BC o câmbio pode chegar a R$ 2,70", disse Lacerda.

O diretor do grupo Predileto Alimentos, Antenor Barros Leal, importador de trigo e exportador de frangos, disse que a queda do câmbio foi uma resposta positiva de "confiança do mercado na política monetária do País e na atitude de independência do Comitê de Política Monetária (Copom)", ao decidir pela alta dos juros. Segundo ele, o recuo do câmbio ontem refletiu comportamento de troca de ativos, de dólares para títulos do governo, estimulada pela alta dos juros.