Título: Mercenários dominam setor de informações
Autor: Falcão, Márcio
Fonte: Gazeta Mercantil, 08/09/2008, Política, p. A11

Brasília, 8 de Setembro de 2008 - Ao fazer a analogia dos casos de espionagem que abalaram Brasília nos últimos três anos, a Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) passaram a prestar a atenção em um segmento que estava fora do foco das investigações sobre o grampo no telefone do presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes. Ex-servidores da área de inteligência dos dois órgãos que, afastados, passaram para a área privada de segurança e hoje formam uma autêntica rede de mercenários que vende serviços de espionagem a políticos e empresários. O caso que mais vem chamando a atenção dos analistas é o escândalo dos Correios - aquele em que o ex-diretor de compras da estatal, Maurício Marinho aparece na telinha da televisão, em junho de 2005, embolsando uma propina de R$ 3 mil. A denúncia acabou jogando os holofotes nos personagens centrais de uma importante rede empresarial que se utilizava da espionagem para disputar licitações públicas usando como trunfo gravações clandestinas. O mandante da gravação foi o empresário Arthur Washeck, fornecedor e atravessador de produtos a vários órgãos do governo federal, que contratara o esquema de espionagem operado pelo ex-agente da Abin, Jairo Martins de Souza, ex-cabo do serviço secreto da Polícia Militar do Distrito Federal, jornalista e figura carimbadíssima no submundo da arapongagem. O ex-agente já havia participado de outros esquemas de espionagem clandestina, entre eles, o que resultou na cassação do ex-deputado André Luiz (PMDB-RJ), flagrado acertando uma propina do bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Para armar o esquema contra os Correios, Jairo contratou o advogado Joel dos Santos Filho, que ofereceu a propina aceita por Marinho e, com uma maleta equipada para captar imagem e áudio, depois de duas tentativas frustradas, gravou a cena. Uma cópia da gravação foi entregue pelo próprio Jairo ao repórter Policarpo Júnior, um dos jornalistas que assina a matéria publicada na semana passada por Veja sobre o conteúdo da conversa entre Gilmar Mendes e o senador Demóstenes Torres. Descoberto pela Polícia Federal, os arapongas foram presos e depois prestaram depoimento á CPI dos Correios. Como Washeck assumiu a responsabilidade pela contratação dos "serviços", Jairo fez um discurso de paladino de uma cruzada contra a corrupção e depois submergiu novamente. Embora as investigações não tenham sido aprofundadas, parte dos parlamentares que integravam a CPI dos Correios, achava que o empresário Washeck - que flertava com uma ala militar ligada à extrema direita - , poderia ter servido de "laranja" dentro de um esquema de conspiração que, além de escancarar o esquema de corrupção no governo, tinha finalidade de impor desgaste ao presidente Lula. Esta semana, agentes que investigam a origem do grampo em Mendes e Demóstenes Torres descobriram pegadas de Jairo em Brasília. Não há indícios de que tenha se envolvido diretamente na escuta a Gilmar Mendes, mas os investigadores sabem que tem know-how e operou na mesma matriz que ainda está ativa. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 11)(Vasconcelo Quadros)