Título: Fonte a partir do sol pode ganhar força no Brasil
Autor: Scrivano, Roberta
Fonte: Gazeta Mercantil, 02/09/2008, Infra-estrutura, p. C4

São Paulo, 2 de Setembro de 2008 - Nas discussões a respeito das mudanças climáticas, o foco se volta para as chamadas fontes alternativas, capazes de reduzir rapidamente o impacto ao meio ambiente. Ricardo Ruther, diretor técnico do Instituto para o Desenvolvimento das Energias Alternativas (Idea) e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), defende o uso de painéis fotovoltaicos - que transformam luz solar em eletricidade - nos centros urbanos do Brasil, com o diferencial de estarem ligados à rede elétrica nacional, o que permitirá ao consumidor vender sua eletricidade excedente. "Até 2013, considerando os aumentos no preço da tarifa brasileira e a redução dos custos dos painéis, em várias regiões do País, será mais barato ter o seu próprio painel e gerar energia do que comprá-la da distribuidora, como é feito hoje", prevê o especialista, que salienta os ganhos ambientais desta forma de geração energética. Segundo cálculos do professor, se considerado um reajuste anual tarifário de 4% e redução de 7% no custo da produção dos painéis por ano, a energia convencional terá o mesmo preço da energia fotovoltaica no Ceará, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Pernambuco, entre outros estados, a partir de 2013. De acordo com o cenário proposto, as regiões terão uma tarifa convencional de energia para o setor residencial de R$ 0,62 o kilowatt-hora (KWh), o mesmo valor da energia solar geradas nesses estados. A proposta de Ruther engloba ainda uma mudança no sistema energético nacional, já que as residências passarão a gerar eletricidade e poderão vender a energia que não usaram. "As residências terão os seus painéis fotovoltaicos instalados nos telhados. Tudo aquilo que gerarem e não consumirem poderão vender de volta ao sistema", afirma. O professor explica que a geração solar conectada à rede elétrica é vista como uma tecnologia para países desenvolvidos, enquanto os pequenos sistemas solares isolados, como aqueles que vêm sendo utilizados no programa "Luz para Todos" do governo Federal, são vistos como a aplicação mais apropriada da tecnologia para os países em desenvolvimento como o Brasil. "Este raciocínio está baseado no alto custo da geração solar", afirma Ruther. Porém, segundo ele, a análise da curva de redução de custos da geração solar, ou seja, a curva de aprendizado da produção industrial desta tecnologia, mostra que, cada vez que a produção acumulada dos painéis fotovoltaicos no mundo dobra, o custo de produção cai cerca de 20%. "Em contrapartida, as tarifas de energia têm sofrido aumentos consideravelmente superiores à inflação e não há indicativos de que esta tendência se modifique nos próximos dez anos", afirma o especialista. Além disso, diz ele, a utilização da energia fotovoltaica em centros urbanos pode auxiliar na redução do pico de demanda, diminuindo a sobrecarga da rede. Ruther salienta que o modelo proposto por ele já é uma fórmula de sucesso na Europa e nos Estados Unidos. "A Alemanha é líder na aplicação da energia solar", afirma Ruther. Segundo o professor, no ano passado na Alemanha foram instalados geradores solares conectados à rede elétrica que juntos somam 1, 3 mil megawatts (MW) de potência, o equivalente a usina nuclear de Angra 2. Em 2006, o país europeu conectou à suas redes sistemas solares fotovoltaicos com potência superior à da termelétrica Jorge Lacerda, a maior usina a carvão da América Latina, ou seja, mais 800 MW. Os alemães estão fazendo estas instalações por meio de um programa governamental de incentivo e Ruther defende um planejamento parecido. "O modelo que nós estamos propondo é parecido com o da Alemanha. O consumidor deve receber cerca de três vezes mais pela energia vendida do que pela comprada, dessa forma o investimento para a aquisição da placa seria recuperado", justifica o professor. Ruther comenta que já apresentou o projeto em diversos locais do País e do mundo, bem como para o governo federal brasileiro. "É preciso fazer um trabalho de conscientização em relação à eficiência energética para sustentar o projeto e adaptar o sistema para recebê-lo", afirma. (Gazeta Mercantil/Caderno C - Pág. 4)(Roberta Scrivano)