Título: Mercado paga salário menor para mulheres
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Fonte: Gazeta Mercantil, 10/09/2008, Nacional, p. A5

Brasília, 10 de Setembro de 2008 - Apesar da diferença entre ricos e pobres ter caído nos últimos anos, as desigualdades sociais que afetam mulheres e negros seguem em patamares muito elevados, mostrou uma pesquisa do governo em parceria com a Organização das Nações Unidas (ONU). De acordo com a pesquisa, as mulheres tinham em 2006 uma renda média de dois terços da renda de um homem. Já a renda média dos negros era a metade da de um branco. "A discriminação motivada por sexo e por grupo de cor ou raça encontra-se disseminada em diversos campos da vida social", apontou o levantamento feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres e Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifem). Rendimentos Há dois anos, os homens recebiam em média cerca de R$ 885,00 ao mês, enquanto as mulheres, R$ 577,00. Em 1996, a proporção era de R$ 962,00 para os homens e R$ 561,00 para as mulheres. No mesmo período, os negros como um todo recebiam cerca de metade do rendimento dos brancos, perfazendo R$ 502,00 por mês, contra R$ 986,50. Dez anos antes, a distância era um pouco maior: os negros ganhavam uma média de R$ 482,00 ao mês, e os brancos, R$ 1.044,00. "Os negros trabalham durante mais tempo ao longo da vida, entrando mais cedo e saindo mais tarde do mercado de trabalho", dizem os pesquisadores no estudo. Em agosto deste ano, o próprio Ipea divulgou documento o qual apontou queda na diferença de salário entre ricos e pobres. O crescimento econômico e programas sociais como o Bolsa-Família foram apontados na ocasião como responsáveis pelo cenário. A atual pesquisa, entretanto, indica que essa melhora não provocou mudanças tão efetivas nas condições de vida entre mulheres e negros, que constituem a maioria da população brasileira. "O Bolsa-Família tem um corte de renda, mas não é uma ação afirmativa", disse Jorge Abrahão, diretor de estudos sociais do Ipea. Geladeira e fogão Considerada um dos principais obstáculos ao desenvolvimento econômico do Brasil, a educação é outro fator diferencial. Os indicadores educacionais mostram que as mulheres apresentam melhores condições do que os homens. Essa vantagem, porém, não se traduz em cargos de melhor qualificação e em maiores salários. "São as mulheres e os negros os que apresentam os maiores níveis de desemprego, de 11% e 7,1%, respectivamente, comparados a 6,4% entre os homens e 5,7% entre os brancos", indicou a pesquisa do Ipea. Em 1996, segundo a pesquisa, 46% da população feminina estava ocupada ou à procura de emprego, saltando para 52,6% em 2006. A marca ainda é significativamente inferior a dos homens, de 72,9% no mesmo ano. Já os negros e negras estão menos presentes nas escolas e apresentam taxas de analfabetismo maiores. As desigualdades ficam ainda mais acentuadas quanto maior for o nível de ensino. Nordeste Apesar dos esforços do governo para desenvolver o Nordeste, os dados apontam diferenças significativas, com 24,5% dos homens negros com 15 anos ou mais de idade na região não sendo capazes de ler seque um bilhete simples. Hoje, já é possível encontrar geladeira e fogão na maioria dos lares brasileiros, mas enquanto somente 5,5% dos domicílios chefiados por brancos não possuíam geladeira, essa situação alcança 17% dos domicílios chefiados por negros. "Esses números impressionam uma vez que se trata de um bem considerado de primeira necessidade." A proporção de famílias chefiadas por mulheres aumentou de 19,7% em 1993 para 28,8% em 2006. Ao mesmo tempo, apesar de tímido, o levantamento mostrou que também cresceu o número de famílias monoparentais masculinas. Cada vez mais, os homens têm assumido a responsabilidade tanto pela provisão quanto pelo cuidado dos filhos e filhas, tarefa tradicionalmente realizada pela mulher. Mulheres no comando Em 13 anos, o número de famílias formadas por casais com filhos chefiadas por mulheres aumentou dez vezes, passando de um percentual de 3,4% em 1993 para 14,2% em 2006. "Supondo-se um padrão de família tradicional formado por mãe, pai e filhos, sem considerar os novos arranjos familiares contemporâneos, esse dado nos leva a pensar num horizonte cultural mais igualitário entre homens e mulheres dentro das famílias, seguidas de um maior empoderamento para as mulheres." (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 5)(Reuters)