Título: Aumenta vulnerabilidade da indústria brasileira
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 29/08/2008, Editoriais, p. A2
29 de Agosto de 2008 - cape 1,O estudo "A evolução da Estrutura Industrial", analisando o desempenho do setor industrial brasileiro entre 1996 e 2006, mostra que as atividades com uso intenso de recursos naturais avançou muito, frente às áreas com maior tecnologia agregada. Esse levantamento, de responsabilidade do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), mostrou que em 1996 cinco setores dominavam 51,8% do valor de transformação do setor: alimentos e bebidas, químicos, veículos e carrocerias, coque e refino de petróleo e máquinas e equipamentos. Dez anos depois, 50,3% do valor de transformação se concentrava em quatro setores: coque, bebidas e alimentos, químicos e metalurgia básica. É preciso reconhecer que esse quadro reflete o novo perfil da participação brasileira no comércio internacional. Na semana passada, dados da Secretaria de Comércio Exterior indicaram que a China ultrapassou a Argentina como o segundo lugar na corrente de comércio brasileira, depois da liderança norte-americana. Anualizada, referência julho, a corrente de comércio entre Brasília e Pequim alcançou US$ 31,8 bilhões, enquanto a soma das exportações e importações com a Argentina totalizou US$ 29,5 bilhões. O essencial na ultrapassagem dos chineses é o perfil qualitativo da pauta desse comércio exterior; enquanto com Buenos Aires a balança de comércio é superavitária para o Brasil em US$ 5,1 bilhões, no caso da China o País amarga um déficit comercial nos 12 meses anteriores a julho, de US$ 2,6 bilhões. Os dados do Iedi confirmam que as exportações para a Argentina agregam valor, com produtos de média e alta tecnologia, enquanto para a China as conmmodities predominam de modo absoluto. A trajetória de perda de valor agregado também aparece na concentração dos investimentos. O estudo do Iedi mostrou que os fabricantes de coque, refino de petróleo e produção de álcool (setores em que a Petrobras está muito presente) lideram a captação de investimentos, alcançando 24,1% do total de aportes de 2006. Vale notar que esses mesmos setores, em 1996, somavam apenas 10% do conjunto dos investimentos. Só o setor de alimentos e bebidas manteve a mesma capacidade de captar investimentos: 17% em 1996 e 16,3% dez anos depois. É fato que a taxa média de investimentos da indústria brasileira foi baixa, 12,9%, ao longo dessa década, muito aquém dos 20% que o Iedi considera necessários, aliás um percentual ainda muito modesto, quando se toma como referência o contexto asiático em que os exemplos de Coréia do Sul e China mostram uma taxa média de desenvolvimento industrial no mínimo três vezes maior que a brasileira. Não é diferente com índices médios de produtividade, nessa mesma comparação de uma década. Enquanto a indústria de coque acumulou ganhos de produtividade de 1.086% de 1996 a 2006, a fabricação de produtos têxteis alcançou 88,1% no mesmo período e, por exemplo, a fabricação de máquinas para escritório somou 71,7%. Há impactos relevantes em todo esse processo para a geração de emprego e renda. Estudo publicado em 2007, do professor Márcio Cruz, analisando a evolução do emprego industrial, entre 1985 e 2005, mostrou que a indústria de transformação, que representava 30% dos empregos industriais no início desse período, caiu para 19,4% em 2005. Já os setores baseados em recursos naturais saltaram a participação no mercado de trabalho industrial de 28% para 32% , na mesma comparação. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior revelaram o reflexo dessas escolhas que começam no perfil dos investimentos no setor industrial. No primeiro semestre a indústria de transformação acumulou um déficit na balança do comércio de US$ 3,8 bilhões, a primeira vez, desde 2001, que esse segmento apresenta saldo negativo entre compras e vendas externas. É preciso lembrar que em 2005, a indústria de transformação apurou um superávit anual de US$ 23 bilhões. Em dois anos, a vantagem acabou para o fabricante de produtos com valor agregado. Curiosamente, instituições internacionais acima de qualquer suspeita quanto a ranços nacionalistas, como o Banco Mundial, revisaram seus cálculos e apontaram que certas fórmulas para diminuir a pobreza foram mais eficientes que outras nos últimos dez anos. Relatório desse organismo internacional, divulgada no começo desta semana, informou que apenas a China conseguiu reduzir a população que vive com menos de US$ 1,25 ao dia. A China, que decidiu investir na agregação de valor, acelerou o controle de sua dívida social e multiplicou por dez sua participação no comércio mundial.O Brasil, como mostrou o Iedi, fez outra escolha. (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 2)