Título: Investidores vivem sua prova de fogo
Autor: Filgueiras, Maria Luíza
Fonte: Gazeta Mercantil, 21/08/2008, Finanças, p. B2
Rio de Janeiro, 21 de Agosto de 2008 - Até os mais desavisados investidores sabem de cor e salteado que a máxima que rege a operação no mercado acionário é comprar um papel na cotação mais baixa e vender na alta. Assim, nos momentos de volatilidade, é possível adquirir uma pechincha com alto potencial de valorização, em condições normais de temperatura e pressão do mercado e contando com uma empresa bem gerida. Mas por que os investidores estão fugindo da bolsa, ao invés de seguir a lição básica do mercado? São nesses momentos que a psicologia econômica (e não o investidor), vertente que ganha cada vez mais espaço no mercado, faz a festa. A observação do comportamento do investidor é óbvia quando o momento é muito bom, muito ruim ou de muita ansiedade. A economia comportamental tenta ser mais ampla que a pura matemática, entendendo a motivação das atitudes que geram ciclos econômicos. "Hoje os investidores estão usando mais a emoção, o que provoca quedas maiores e consecutivas", afirma o professor doutor Jurandir Sell Macedo, da Universidade Federal de Santa Catarina e consultor do Instituto de Educação Financeira, que participará hoje do 20 Congresso da Apimec, na capital fluminense. Na avaliação acadêmica, a idéia dominante até 1934 era que o homem agia emocionalmente, utilizando "feeling" para investir. A vertente foi substituída em 1951 com o surgimento do movimento racionalista, que acredita que a definição de uma atitude de investimento era baseada apenas na razão e definições feitas por emoção acabariam expulsas do mercado. Desde então o conceito de comprar carteiras diversificadas e ao longo do tempo, para investimento de longo prazo, passou a ser utilizado. "Mas em 1979, Daniel Kahneman (ganhador do Nobel de Economia em 2002) viu que não somos totalmente racionais, respeitando todos os axiomas teóricos esperados. O que se pensava, com a psicologia behaviorista, é que tínhamos cérebros homogêneos, mas desenvolvido ao longo de milhões de anos com mecanismos cerebrais que respondem a gratificações", explica Macedo. "Assim o mecanismo emocional, o pavor, toma conta da ação. A queda da Bovespa não é tão significativa (no comparativo a outras bolsas mundiais e ao histórico da bolsa paulista), mas é a primeira da vida de muitos inves-tidores, o que a torna relevante e de maiores proporções." Ele destaca que, entre os dias 16 de outubro de 2002 e 20 de maio de 2008 (pico da bolsa paulista com investment grade, acima de 72 mil pontos), o Ibovespa se valorizou 778,3%. Considerando o período desde a posse do presidente Lula, em 2003, o índice das principais ações da bolsa acumula variação positiva de 391,5% - e foi neste período que o número de investidores da Bovespa passou de 85 mil para 516 mil. "Significa que 83,5% dos investidores só experimentaram períodos de alta e tendem a pensar que o mercado só sobe", ressalta. Plano de longo prazo Enquanto muitos brasileiros debutam na volatilidade do mercado e a matéria de finanças comportamentais avança, a proposta do especialista para contornar sustos é que, para entrar num negócio, o investidor trace planos, escreva no papel literalmente, e invista devagar para aprender a controlar as emoções no sobe-e-desce do mercado - o que um cursinho básico de quatro horas sobre bolsa de valores definitivamente não vai ensinar. Ele não gosta de falar em pechincha - afinal quem garante que o que está barato hoje não estará ainda mais barato daqui a três meses? - mas avalia que as ações brasileiras estão com as cotações de um ano atrás. "Mas a grande maioria dos investidores não entende que está comprando um pedacinho de uma empresa, e se entender como sócia pode dar um pouco mais de tranqüilidade. As ações da Klabin estão caindo, mas as pessoas continuam usando papel higiênico. Até na crise global", exemplifica. Ele lembra que as análises técnica e fundamentalista utilizam o passado para projetar o futuro, sem garantia de que o cenário vai se repetir. Já a escola conhecida como finanças modernas avalia que o mercado é eficiente para projetar preços. Para Antonio Castro, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Capital Aberto (Abrasca), há mais de um ano o mercado vem alertando para a necessidade de compras mais seletivas. "Vemos que a performance operacional das empresas brasileiras continuam positivas, mas que cerca de 70% da entrada de recursos nos IPOs do ano passado foi de capital estrangeiro, o que gerou impacto relevante na bolsa brasileira", diz. "Agora não se pode fazer apostas genéricas em índices, mas existem boas oportunidades. (Gazeta Mercantil/Finanças & Mercados - Pág. 2)(Maria Luíza Filgueiras)