Título: A Lei de Gerson está em vigência
Autor: Nascimento, Sandra
Fonte: Gazeta Mercantil, 19/08/2008, opinião, p. A2

19 de Agosto de 2008 - O importante é levar vantagem em tudo, certo? A famosa "Lei de Gerson" - sucesso nos anos 70 e depois execrada por passar a idéia de o brasileiro ser um povo pouco afeito a questões éticas - causou tanta indignação que o "canhotinha de ouro" tricampeão mundial viu-se obrigado a se dizer arrependido de ter dito a dita cuja num comercial de cigarro. Pois bem. Na semana passada, pesquisa Vox Populi divulgada pela Associação Brasileira de Magistrados (AMB) mostrou que 61% dos entrevistados acham que "a maioria das pessoas" que conhece "aceitaria votar em um candidato em troca de alguma vantagem". Espertamente a pergunta não foi feita diretamente "você aceitaria votar...". Afinal, é sempre mais fácil apontar uma terceira pessoa... A mesma pesquisa traz também outra constatação relevante: para 85% dos entrevistados, a política beneficia principalmente os próprios políticos, ante apenas 12% que consideram o "povo" o maior beneficiado. As duas questões são complementares, ou mais ainda, por meios tortuosos, até se justificam. "Afinal, se com o meu voto o político eleito irá obter vantagens pessoais, nada mais justo que eu busque os meus interesses..." E assim a vida segue, em círculos que pouco espaço deixam para avanços significativos. E, ainda segundo o levantamento da AMB, o que o eleitor espera, de vereadores e prefeitos, são coisas que vão do pagamento de despesas de hospitais e enterro ao patrocínio de festas e formaturas, passando pela ajuda para arrumar emprego e entrega de dinheiro diretamente a pessoas necessitadas. Sem emprego e saúde, direitos que deveriam ser garantidos pelo Estado, seja de forma direta ou indireta por meios de uma política econômica realmente inclusiva, o eleitor busca o "jeitinho", a ajuda de "doutor fulano" ou "sicrano" que, por sua vez, ao usar a máquina pública (que, em tese, seria de todos) para atender a esse ou aquele indivíduo ou comunidade, torna-se o verdadeiro beneficiado, já que, ao ajudar, fica claro aos ajudados que ele tem poder sobre a máquina, mas para isso precisa do voto do eleitor para continuar nela... E como culpar o eleitor, cidadão muitas vezes desesperado nas filas infinitas dos hospitais públicos? Também na semana passada um fato ilustrativo foi divulgado pelo Diário do Grande ABC, que cobre os sete municípios da região paulista que leva o mesmo nome, famosa pelas montadoras e por ter sido palco principal da história político-sindical do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Uma senhora reclamou ao candidato a prefeito de Diadema Mário Reali, do PT, partido que governa a cidade, durante uma campanha de rua, estar na fila de espera por mais de dois meses para conseguir uma consulta em uma das Unidades Básicas de Saúde (UBS). Depois de uma movimentação que envolveu equipe de campanha e até o gerente geral da UBS, ainda segundo a matéria, a senhora, uma doméstica desempregada, conseguiu agendar a sua consulta para dali a dois dias. Não nos interessa aqui partidos ou candidatos, já que fatos como esses são regras, não exceção. Muitas vezes pode-se até dar um voto de boa vontade ao político - afinal, o que eu faria, o que você, caro leitor, faria, se fosse político e visse uma situação de emergência à frente que pudesse ser resolvida facilmente com um telefonema seu? A questão é justamente o que fazer para que isso não seja mais necessário, e não o contrário, infelizmente como ainda se vem fazendo, as provas estão aí diante de nossos olhos a todo instante - trabalhar justamente para manter a "fulanização", o "QI" (quem indica) para as soluções dos problemas públicos. Porque, como mostra essa mesma pesquisa, o eleitor sabe quais são as verdadeiras funções de prefeitos e governadores. Dos entrevistados, 94% disseram entender que os integrantes das Câmaras Municipais devem discutir e aprovar leis, enquanto 96% afirmaram que chefes do Executivo devem construir escolas e hospitais. Eles só não sabem em quem votar para garantir que essa seja a regra, não a exceção. kicker: O eleitor ainda busca a ajuda de doutor fulano ou sicrano para resolver seus problemas. SANDRA NASCIMENTO* - Editora de Política da Gazeta Mercantil E-mail: snascime@gazetamercantil.com.br)