Título: América Latina menos vulnerável
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Fonte: Gazeta Mercantil, 19/09/2008, Notas e Informações, p. A3

A América Latina, incluído o Brasil, está mais preparada que noutros tempos para enfrentar a acomodação dos preços dos produtos básicos, segundo análise divulgada pela agência Moody¿s de classificação de riscos. Depois de uma alta prolongada, estima o relatório, as cotações desses produtos devem baixar, ajustando-se à redução do crescimento econômico mundial, ao recuo dos especuladores e à normalização das condições de produção em países fornecedores. A novidade apresentada no documento é a opinião mais positiva sobre a política econômica e a capacidade de ajuste da região.

Os sinais de acomodação dos mercados de alimentos, petróleo e vários tipos de minérios vêm-se acumulando há mais de um mês. Discutiu-se muito sobre a importância real da especulação como fator de alta de preços nos últimos anos. A evolução recente dos mercados parece confirmar que esse componente, embora secundário, teve uma influência considerável no encarecimento das commodities. O aperto do crédito - uma das conseqüências do estouro da bolha imobiliária - diminuiu o fôlego dos especuladores. Além disso, os sinais de esfriamento econômico nos Estados Unidos, no Japão e na União Européia aumentam consideravelmente o risco de quem aposta na permanência de preços muito altos para matérias-primas e bens intermediários.

Os países latino-americanos estiveram entre os principais beneficiários da alta dos preços das commodities. Noutros tempos, estariam entre os principais perdedores, no caso de um recuo das cotações. Nesse caso, várias dessas economias poderiam enfrentar uma crise cambial e financeira.

Desta vez, o resultado mais previsível deve ser uma redução do crescimento para um ritmo mais compatível com o potencial desses países, de acordo com o analista da Moody¿s para a América Latina, Alfredo Coutiño. Esse ritmo deve corresponder a 4,5% ao ano. Em 2007, os países da região cresceram em média 5,7%.

Para justificar sua avaliação, o economista chama a atenção para mudanças importantes ocorridas na América Latina. Ao contrário do que ocorria noutros tempos, a bonança no comércio exterior não foi desperdiçada em gastos irresponsáveis. As políticas fiscais se tornaram mais prudentes e a região está mais preparada para se ajustar a tempos difíceis. Em segundo lugar, reservas cambiais foram acumuladas e vários países dispõem de um colchão de segurança para choques externos. Em terceiro lugar, diminuiu a dependência da exportação de produtos básicos.

De modo geral, essa avaliação parece correta. Também analistas do Banco Mundial e do FMI vêm chamando a atenção para a melhora da política econômica em vários países da América Latina. O cenário torna-se um pouco mais sombrio, no entanto, quando se examinam os países, separadamente, e as políticas adotadas em cada um. Alguns, como o Chile, embora dependam muito da exportação de poucos produtos, têm uma posição fiscal sólida e condições de resistir a choques severos. Outros países não foram administrados com a mesma prudência e são mais vulneráveis a mudanças no comércio internacional.

A economia do Brasil é diversificada e sua exportação também - tanto no que se refere aos produtos vendidos como pela variedade dos mercados aos quais suas vendas são dirigidas. Dispõe de reservas elevadas - atualmente acima de US$ 200 bilhões - e não há grandes problemas no seu passivo externo. Mas há alguns motivos de preocupação. A conta corrente do balanço de pagamentos mudou de sinal e tornou-se deficitária bem antes de começarem a cair os preços dos produtos básicos. As despesas com importações têm crescido com o dobro da velocidade da receita de exportação. O valor exportado tem crescido mais que o volume e o superávit comercial tem dependido principalmente das vendas de produtos básicos.

A mudança nos mercados de commodities deve acentuar a tendência de enfraquecimento das contas externas. É mais importante do que nunca cuidar de melhorar as condições de competição do produtor nacional em todos os setores. A redução dos entraves burocráticos ao comércio, prometida pelo governo, será muito bem-vinda, mas é apenas uma parte do muito que se tem de fazer para destravar as exportações.