Título: Será o Brasil o lanterninha dos Bric? :: Maria Tereza Leme Fleury
Autor:
Fonte: Gazeta Mercantil, 22/09/2008, Opinião, p. A3

22 de Setembro de 2008 - Nesta última semana, com a crise nos mercados financeiros internacionais, a pergunta que permeou os debates é se o atual ciclo de investimento produtivo da economia brasileira , que dura vários anos e que pode resultar em uma taxa de investimento de 21% do PIB em 2010, pode ser afetado pela crise externa. Tive a oportunidade de participar do 5 Fórum de Economia promovido pela EESP da Fundação Getulio Vargas e assistir à palestra de abertura do ministro Guido Mantega. Suas análises, num tom de otimismo cauteloso, apontaram um crescimento mais equilibrado dos vários setores da economia, e não só dos segmentos de commodities. O cenário brasileiro para enfrentar a atual crise é mais positivo que em outras épocas, e com as reformas e programas de investimentos propostos haverá inclusive o estímulo à exportação de manufaturados. Foi consenso, entre os vários participantes, que a manutenção do atual ciclo de expansão da economia brasileira dependerá dos setores público e privado para promover mudanças em fatores que limitam o crescimento do PIB. Contrapondo estas análises à posição do País nos vários rankings internacionais, estes mostraram uma evolução em várias dimensões de desenvolvimento econômico e social, em termos absolutos, mas ainda numa posição relativa pior na comparação com as outras economias emergentes; os demais países dos Bric (Rússia, Índia e China) constituem sempre a referência para estas comparações. Por exemplo, o relatório Doing Business 2009 do Banco Mundial situa o Brasil em 125 lugar, atrás não só dos emergentes China, Rússia , Índia , mas também do Chile, México e Argentina. Entre os vários problemas apontados para abertura e fechamento de empresas, assim como para o comércio exterior, aparecem o baixo nível educacional da população, a falta de confiança nas instituições e a corrupção. Nos rankings e pesquisas sobre a internacionalização das empresas brasileiras, muitos dos problemas levantados, que dificultam o caminho das empresas, apontam para mesma direção. O primeiro passo de uma empresa rumo à internacionalização se dá geralmente pela atividade de exportação. Ao exportar, ao colocar seus produtos ou serviços em um país próximo ou longínquo, com cultura, ambiente econômico, instituições diferentes, a empresa aprende com a experiência e vai desenvolvendo competências para os próximos passos.Se for um experiência bem-sucedida, o aprendizado pode ir se consolidando; se a experiência for negativa e os percalços enfrentados corroerem a chance de sucesso, a experiência é engavetada e a empresa se volta para os limites do mercado interno. Em um estudo realizado pelo Centro de Estudos de Logística GVLog, "Competitividade brasileira nas exportações", coordenado pelo professor Manuel Reis, foram identificados os principais gargalos ao processo de exportação das empresas. Aspectos macroeconômicos, tributários e a dificuldade de oferecer preços competitivos impactam significativamente a competitividade das exportações das empresas. A legislação, a falta de infra-estrutura e a burocracia do processo exportador também são considerados críticos. Segundo os autores, as limitações das empresas mostraram isoladamente o grupo de gargalos menos relevante. Ou seja, as empresas conhecem o processo de exportação e, por isso, esse tipo de gargalo não afeta sua competitividade. Pesquisando empresas em um estágio mais avançado no processo de internacionalização, ou seja, empresas que já têm operações e subsidiárias em países estrangeiros, o estudo " Estratégias e competências das multinacionais brasileiras" (Fleury, Fleury Miranda Oliveira Jr e Borini) encontrou dados que corroboram as análises mencionadas. Questionando o que dificulta a formação de competências das empresas brasileiras para internacionalização, foram mencionados como fatores críticos: a educação, a política industrial, de ciência e tecnologia, a infra-estrutura, aspectos institucionais. Quer seja para abrir um negócio no Brasil, quer seja para se lançar para o mercado externo, os problemas identificados apontam questões parecidas; os problemas educacionais, a falta de pessoal qualificado é sobejamente conhecida. A necessidade de políticas governamentais consistentes, de investimentos em tecnologia e infra-estrutura é também premente. Os investimentos projetados pelo BNDES em R$ 2,4 trilhões para o triênio 2008/10 são fundamentais para se enfrentar alguns dos nossos problemas estruturais. Segundo os profissionais do banco, eles deverão ser mantidos, apesar da crise financeira, pois dependem mais da geração de recursos não dependentes da economia americana e pelo mercado interno. É o que todos esperamos, para que o crescimento brasileiro seja sustentável e consigamos sair da posição de lanterninha. kicker: É fundamental investir para superar os gargalos estruturais (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 3) MARIA TEREZA LEME FLEURY* - Diretora da EASP/FGV e professora da FEA/USP. Próximo artigo da autora em 27 de outubroE-mail: mtfleury@usp.sp)