Título: CIA admite: houve tortura
Autor: Craveiro, Rodrigo
Fonte: Correio Braziliense, 05/05/2011, Mundo, p. 28

A polêmica sobre os métodos empregados pelos militares e pelo pessoal de inteligência no interrogatório de prisioneiros da guerra ao terror voltou à tona com a notícia de que foi um detento da base americana de Guantánamo quem deu a pista capaz de levar à localização de Osama bin Laden. Ontem, o diretor da Agência Central de Inteligência (CIA), Leon Panetta, admitiu que a informação pode ter sido obtida com recurso à tortura.

¿Técnicas de interrogatório coercitivas foram usadas contra alguns desses prisioneiros. Quanto ao debate sobre se poderíamos ter obtido as mesmas informações por outros meios, acho que será sempre uma questão em aberto¿, disse Panetta, na noite de terça-feira, em entrevista à rede de televisão NBC. Com certo desconforto, o chefe da CIA admitiu que o sofrimento físico foi empregado contra prisioneiros ligados à Al-Qaeda, mas deixou em aberto se teriam sido essas confissões a fonte das informações que permitiram à inteligência encontrar Bin Laden e planejar a operação executada na madrugada de segunda-feira.

Panetta também afirmou que a ordem era matar Bin Laden. ¿Isso estava claro. Mas também estava claro, como parte das regras da operação, que se ele de repente levantasse as mãos e se rendesse, então teríamos a oportunidade de capturá-lo. Mas essa oportunidade nunca se apresentou¿, explicou. O diretor da CIA assumirá em breve o Departamento de Defesa, no lugar de Robert Gates. O substituto de Panetta será o general David Petraeus, atual comandante das forças internacionais no Afeganistão.

Herança de Bush As investigações que permitiram localizar a fortaleza do líder terrorista em Abbottabad, a cerca de 1km da principal academia militar do Paquistão e num bairro onde moram oficiais reformados, começou ainda na administração anterior, em 2007 ¿ antes, portanto, de Panetta assumir a CIA, no governo Obama. De acordo com o jornal americano The New York Times, um dos prisioneiros que passaram por interrogatório teria identificado o mensageiro que vivia com o líder da Al-Qaeda. De início, foi divulgado que a informação teria vindo de Khalid Shaikh Mohammed, um dos planejadores dos atentados de 11 de setembro. Segundo a imprensa americana, ele foi submetido 183 vezes a afogamento simulado, mas não divulgou nenhuma informação. O método está entre os que eram aplicados a prisioneiros ligados à Al-Qaeda, até que foram oficialmente banidos, por decisão de Obama.

Desde a notícia sobre a morte do terrorista, o governo americano tenta contornar o embate sobre o uso da tortura. O argumento é de que os métodos foram usados logo depois de 2001, ainda na era Bush, mas não foram significativos para a operação. ¿A questão principal é essa: se nós tivéssemos alguma informação obtida por afogamento simulado em 2003, teríamos pego Bin Laden em 2003. Foram necessários anos de análise de diferentes fontes para identificar o complexo (em Abbottabad) e nos fizesse chegar à ideia de que ele estaria vivendo lá¿, afirmou Tommy Vietor, porta-voz do Conselho de Segurança Nacional.

MINUTO DE SILÊNCIO Bin Laden foi objeto de um pedido insólito de minuto de silêncio na Câmara dos Vereadores de Anápolis (GO), na última segunda-feira, horas depois de ter sido morto. Em nota divulgada ontem, a assessoria da Câmara classifica a atitude como ¿isolada, pessoal e individual¿ do vereador Valmir Jacinto (PR). Ele teria aproveitado a homenagem póstuma a um empresário e um radialista da cidade.