Título: PIB mantém a força
Autor: Martins, Victor
Fonte: Correio Braziliense, 04/06/2011, Economia, p. 12
Enviado especial
Rio de Janeiro ¿ O Brasil começou o ano com o pé no acelerador, mas contido pela alta dos juros e pelo encarecimento do crédito, não avançou o sinal. Pelo contrário, nos primeiros três meses do governo de Dilma Rousseff, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,3% (5,3%, quando anualizado) em relação aos últimos três meses da era Lula. O sinal de responsabilidade veio justamente de onde se temia abusos: das famílias. O consumo dos lares aumentou 0,6%, o pior resultado desde o fim de 2008, auge da crise mundial. Ao mesmo tempo, o país ampliou a sua capacidade de produção, o que, mais à frente, ajudará o Banco Central a empurrar a inflação para o centro da meta, de 4,5%. Os investimentos saltaram 1,2%, o triplo do computado entre outubro e dezembro. Apesar das boas notícias, na próxima quarta-feira, o Comitê de Política Monetária anunciará um novo arrocho na atividade: a taxa básica de juros (Selic) passará de 12% para 12,25% ao ano.
O governo comemorou os resultados divulgados ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Além de o consumo estar em desaceleração, o resultado global do PIB confirma uma acomodação gradual, como quer Dilma. Ela recomendou ao BC que ponha a inflação sob controle, mas sem comprometer o crescimento. Não à toa, o presidente da autoridade monetária, Alexandre Tombini, vem dizendo que, somente no ano que vem, os índices de preços convergirão para o objetivo fixado pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). ¿O que estamos vendo é o fim dos excessos, a começar pelas famílias, que, agora, estão adequando as compras ao orçamento doméstico¿, disse a economista sênior do Royal Bank of Scotland, Zeina Latif.
Pelos dados do IBGE, com o crescimento de 1,3%, o Brasil registrou o terceiro melhor desempenho entre 15 nações que já divulgaram seus resultados. Ficou atrás apenas da Alemanha (1,5%) e da Coreia do Sul (1,4%) e muito à frente de gigantes como os Estados Unidos (0,4%), o Reino Unido (0,5%) e a Itália (0,1%). Os números do PIB vieram dentro das previsões do mercado, entre 1% e 1,7%. Na comparação com o primeiro trimestre de 2010, a economia registrou expansão de 4,2%, também dentro das previsões dos especialistas, de 3,78% a 5,1%. Nos 12 meses terminados em março, o salto foi de 6,2% (ante os 7,5% computados até dezembro).
Os dados do IBGE sobre as riquezas do país ¿ que até agora somam R$ 939,6 bilhões ¿, além de reforçar a posição do Brasil entre as maiores economias do mundo, mostram que, ao menos no primeiro trimestre, o país conseguiu crescer da maneira correta: baseado em investimento (formação bruta de capital fixo) e com as famílias gastando menos e poupando mais. ¿Com a alta da renda (5,9% frente a primeiro trimestre de 2010), as pessoas começam também a guardar mais¿, disse Alessandra Ribeiro, economista da Tendências Consultoria. Ela chamou a atenção para a revisão do PIB no quarto trimestre de 2010: de 0,7% para 0,8%.
Desafios Diante dos fortes números, analistas já começam a rever a projeção do PIB do ano para cima. ¿Mesmo com a esperada desaceleração da economia nos próximos trimestres ¿ a indústria levou um tombo de 2,1% em abril¿, o crescimento ainda será forte no segundo trimestre. A atividade só começará a desacelerar mais significativamente na segunda metade do ano, refletindo, de forma mais intensa, as medidas adotadas pelo BC, incluindo o aumento dos juros¿, afirmou Thaís Marzola, economista da Rosenberg & Associados. ¿No primeiro trimestre, houve um movimento de recomposição dos estoques, o que acabou ajudando a indústria, com um salto de 2,2%¿, concluiu.
Ainda que os números tenham sido bons, os desafios são enormes. O mais urgente deles, apontam os analistas, é o controle da inflação. Alexandre Tombini, do BC, está confiante nas suas estratégias para levar o país a uma boa taxa de expansão e ainda controlar a carestia. Para ele, o resultado do PIB ¿confirma que a economia brasileira se encontra em um ciclo sustentado de expansão, em ritmo mais condizente com o equilíbrio interno e externo¿.
Alfredo Coutinho, diretor para América Latina da Moody¿s Analytics, é da mesma opinião. ¿A economia vai desacelerar mais neste ano, e a moderação ajudará a reduzir o excesso de demanda e ajustar o incipiente desequilíbrio macroeconômico¿, afirmou. Para Luís Otávio de Souza Leal, economista-chefe do Banco ABC Brasil, com a atividade andando a passos mais lentos, o governo terá de evitar um possível recuo dos investimentos produtivos, por causa dos juros altos. ¿Não se pode romper a retomada dos investimentos. Eles são vitais para que a economia cresça sem distorções¿, assinalou. Pelos seus cálculos, a formação bruta de capital fixo avançará a um ritmo médio de 0,6 a 0,8% nos próximos trimestres.
Na avaliação do economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, os riscos de superaquecimento econômico ficaram para trás. A tendência é de que, daqui por diante, o crescimento seja gradual, puxado pelos serviços, que apontaram aumento de 1,1% nos primeiros três meses do ano ante o quarto trimestre de 2010. Com a entrada do grosso da safra no segundo trimestre, o setor agropecuário manterá a expansão ¿ entre janeiro e março, avançou 3,3%, o melhor desempenho do lado da oferta. Frente o primeiro trimestre de 2010, o salto foi de 3,1%. A indústria, mesmo com o recuo de abril, deverá fechar o ano com alta acumulada de 3,2%. A Confederação Nacional da Indústria (CNI), inclusive, revisou de 3,5% para 3,8% o aumento do PIB em 2011.
Com Lula, houve queda A presidente Dilma Rousseff entra para a história econômica brasileira como a presidente que iniciou o mandato com o pé direito. Enquanto o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu 1,3% nos primeiros três meses da sua gestão, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva estreou o mandato em 2003 com queda, vejam só, de 1,3% em relação ao último trimestre da administração Fernando Henrique Cardoso. Esse percentual expressivo de queda foi resultado de revisão da metodologia de cálculo do IBGE. Antes, o órgão havia divulgado que o PIB havia caído 0,1% no primeiro trimestre de 2003.