Quem substituir Guido Mantega no comando da economia, a partir de 2015, enfrentará um verdadeiro teste de fogo. Tão logo seja empossado no cargo, o novo ministro da Fazenda terá de colocar em prática uma série de medidas impopulares que há muito foram deixadas de lado, e das quais a presidente Dilma Rousseff se esquivou durante toda a campanha eleitoral. Mas, com a economia definhando, os investimentos no chão, a inflação elevada e a ameaça de que o país seja rebaixado por uma das principais agências de classificação de risco, os ajustes se tornaram inevitáveis.
Na opinião do estrategista-chefe do Banco Mizuho, Luciano Rosgtano, não há perspectiva de retomada do crescimento a curto prazo. "Não há dúvidas de que, qualquer que seja o escolhido para comandar a Fazenda nos próximos quatro anos, ele enfrentará uma verdadeira pedreira pela frente", assinalou. Seja quem for o escolhido por Dilma, esbarrará na disposição do PT em dar as cartas no governo. O substituto de Mantega no comando da pasta também terá de conviver com a sombra do atual ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, que na
reta final da campanha petista quase tomou a frente da Fazenda para ditar os rumos da economia. Ele só não foi efetivado no cargo porque o ex-presidente Lula teria aconselhado Dilma a indicar um nome com mais "aceitação" no mercado financeiro.
É justamente por isso que, após quase dois meses de especulação, apenas dois nomes ainda aparecem com fôlego na reta final da disputa. Ambos, porém, com pouca ou nenhuma afeição tanto por Dilma quanto pelo PT.
O economista Nelson Barbosa, ex-secretário executivo da Fazenda, que entregou o cargo em 2013, após se desentender com o secretário do Tesouro Nacional, Arno Augustin; o presidente do Banco Central durante o governo Lula, Henrique Meirelles, de quem Dilma não simpatiza.
Barbosa tentou recentemente aproximar-se do ex-presidente Lula, para conseguir a bênção à sua candidatura ao cargo. Esbarrou, no entanto, na preferência do petista por Meirelles. Seja qual for a decisão da presidente, é certo que o escolhido para a Fazenda terá ainda menos apoio do que teve o atual titular da pasta, Guido Mantega, que sempre foi um fiel depositário tanto das ideias do PT, quanto de Dilma.
Medidas impopulares
Economistas, políticos e técnicos do governo são unânimes em dizer que só um amplo e crível ajuste nas contas públicas poderá produzir um choque de credibilidade na política econômica e evitar a perda do grau de investimento. Isso passa por fechar a torneira dos gastos públicos e promover o temido arrocho. "Não só o próximo ministro da Fazenda mas também a presidente Dilma Rousseff têm que dar provas concretas de que tomarão providências para tirar o país da situação atual", disse o economista Raul Velloso, especialista em finanças públicas. "Se eles não forem firmes o suficiente, há um risco real do rebaixamento já nos primeiros meses do segundo mandato", sentenciou.
De acordo com especialistas ouvidos pelo Correio, será necessário barrar reajustes salariais de servidores, elevar impostos e cortar verbas de emendas parlamentares, o que tende a elevar as tensões no Congresso e azedar ainda mais as relações de Dilma com os partidos da base aliada.
A escolha do ministro da Fazenda neste momento delicado de inflação resistente, juros altos, descontrole fiscal e investimento praticamente inexistente ganha ainda mais peso. "Se o baixo crescimento e a inflação elevada continuarem, isso logo, logo baterá no mercado de trabalho, e resultará na derrubada do único pilar da política econômica atual, que é o baixo desemprego", disse Luciano Rostagno, estrategista-chefe do Banco Mizuho.
Popularidade
Analistas consideram que a taxa de desemprego em mínimas históricas, abaixo de 6%, é o que ainda sustenta a popularidade do governo e o que garantiu a reeleição da presidente Dilma. "Ao perder essa última carta na manga, que é o desemprego baixo, o próximo ministro da Fazenda certamente sofrerá pressão do próprio PT e da sociedade como um todo para diminuir a intensidade dos ajustes, que são inevitáveis", cravou Rostagno.