Manifestantes incendiaram ontem a sede do Partido Revolucionário Institucional (PRI) em Chilpancingo, capital do Estado de Guerrero, no México, em protesto contra o desaparecimento de 43 estudantes, em setembro, na cidade de Iguala. A subsecretaria de Proteção Civil informou que pelo menos cinco pessoas ficaram feridas, sendo três policiais e dois jornalistas.
Professores da Coordenação Estatal de Trabalhadores de Educação de Guerrero (Ceteg), o sindicato local, e estudantes de escolas rurais, a maioria encapuçados e armados com paus, pedras e bombas incendiárias, enfrentaram policiais da tropa de choque enviados para controlar a manifestação.
O dirigente do PRI em Guerrero, Cuauhtémoc Salgado, disse a uma emissora de TV local que cerca de 450 pessoas atacaram a sede do partido. No entanto, antes de atear fogo às instalações, eles deixaram sair as 60 pessoas que trabalhavam no local.
O incidente se soma à crescente onda de manifestações enfrentadas pelo governo do presidente Enrique Peña Nieto em razão da indefinição no inquérito sobre o paradeiro dos jovens, embora as autoridades tenham divulgado depoimentos e provas que apontam para a execução dos reféns. Parentes e amigos dos desaparecidos não acreditam na versão e exigem a intensificação das buscas.
Os parentes dos desaparecidos devem se reunir hoje em Chilpancingo com Miguel Ángel Osorio Chong, secretário de Governo, e Jesús Murillo Karam, promotor-geral, para falar sobre as investigações.
China. Além de lidar com o desaparecimento dos 43 estudantes em Iguala, a crise institucional em que o governo do México está mergulhado se intensificou no fim de semana com a revelação de que a primeira-dama, Angélica Rivera, comprou uma mansão de uma construtora envolvida em licitações públicas.
Em viagem oficial à China para participar do Fórum de Cooperação Ásia-Pacífico (Apec), o presidente Peña Nieto e a mulher foram criticados ao sair do México e recepcionados com críticas ao chegar a Pequim.
Durante encontro com Peña Nieto ontem, o primeiro-ministro chinês, Li Kegiang, lamentou a decisão do governo mexicano de anular a licitação para construir uma linha de trem de alta velocidade.
A China Railway Construction Corporation (CRCC)ganhou a licitação em um consórcio com empresas mexicanas para construir a linha entre a Cidade do México e Querétaro, com 210 quilômetros de extensão, por US$ 3,7 bilhões.
Na sexta-feira, Peña Nieto anulou o resultado da licitação, divulgado três dias antes, na qual o consórcio liderado pela CRCC era o único concorrente.
De acordo com a agência de notícias oficial chinesa Xinhua, Kegiang pediu ao governo mexicano um "tratamento justo" para as empresas chinesas que investem no país.
____________________________________________________________________________________________________________________________________
Judiciário falido: o maior desafio para lei prevalecer no México
Durante as buscas pelos 43 estudantes desaparecidos em setembro no Estado de Guerrero, a descoberta de valas comuns na área reforçou o quadro de uma catastrófica violação da lei e da ordem em curso no México. Esse caso, porém, é muito mais do que a história de uma cidadezinha, ou mesmo de um país à mercê de narcotraficantes.
A resposta aos sequestros em Guerrero nas últimas seis semanas enfatiza o problema fundamental que o presidente Enrique Peña Nieto terá de enfrentar: o sistema judiciário não tem condições de investigar devidamente as atrocidades e carece dos controles institucionais indispensáveis para conter a corrupção, o abuso e a incompetência.
Desde que Peña Nieto assumiu a presidência, no fim de 2012, as estatísticas oficiais indicam um declínio das mortes. No entanto, até que ponto esses números são confiáveis, quando a descoberta de valas comuns sugere que muitos dos desaparecidos podem ter sido assassinados?
Mesmo que o número de mortes tenha diminuído, a atuação da Justiça deixou muito a desejar e a polícia e promotores têm poucos incentivos para mudar.
O governo federal, que nomeará um novo procurador-geral para Guerrero após a renúncia recente do detentor do cargo, não tem mais capacidade para conter o clima de impunidade. Agências federais de segurança estão equipadas e estruturadas para reagir ao crime, mas não para impedir ou investigar os atos criminosos. Nos planos estadual e federal, serviços essenciais para fazer valer a lei - médicos legistas, testemunhos de peritos e proteção de testemunhas - estão sob o controle dos promotores que frequentemente dependem de confissões não confiáveis e obtidas criminosamente.
Os fatos ocorridos em Iguala despertaram o México. O desafio é transformar um sistema judiciário que há muito tempo tem servido aos criminosos num sistema onde a lei prevaleça.
Peña Nieto disse que reunirá os políticos, as forças de segurança e grupos da sociedade civil num esforço para "realizar mudanças fundamentais, fortalecer nossas instituições e assegurar o pleno respeito ao Estado de Direito em nosso país". Sua liderança será crucial para que Justiça seja feita para os pais dos desaparecidos em Iguala e para outras famílias angustiadas por todo o país.
____________________________________________________________________________________________________________________________________
O jogo de hoje entre as seleções de Holanda e México, em Amsterdã, marca não só a revanche do encontro anterior entre as duas equipes na Copa do Mundo de futebol no Brasil, como também a oportunidade encontrada por ativistas para protestar contra o desaparecimento dos 43 estudantes em Iguala.
Dianeth Pérez, mexicana residente na Holanda há 11 anos, deu uma entrevista ao Metro Jornal dizendo que vai promover uma "manifestação silenciosa" durante a partida no Amsterdam Arena. Dianeth disse ao jornal que durante a execução dos hinos nacionais, cerca de 500 torcedores mexicanos agitarão lenços pretos e cartazes para expressar "dor e tristeza" em razão do caso dos estudantes da Escola Normal Rural Isidro Burgos, de Ayotzinapa.
Várias outras manifestações contra o desaparecimento dos estudantes mexicanos estão sendo planejadas nas redes sociais. Uma delas, que deve ter consequências na economia, é um boicote ao Buen Fin, uma promoção de vendas semelhante à Black Friday americana.
Comerciantes mexicanos pediram para que os cidadãos não levem adiante o boicote. Enrique Solana Sentíes, presidente da Federação Mexicana de Comércio afirmou que não comprar nada pode ter efeitos muito adversos nos indicadores econômicos e prejudicar pequenas e médias empresas.
O Buen Fin, programa criado em 2011 pelo setor público e privado com apoio do governo federal para reativar o mercado interno por meio de descontos em todos os setores, começa na sexta-feira, apesar da campanha para boicotar o evento como forma de protesto.
Sentíes acredita que o boicote é um erro e pode prejudicar até mesmo os comerciantes de Iguala, onde o sequestro ocorreu. "Os comerciantes não têm culpa por tudo de ruim e espantoso que poderia acontecer com esses meninos em Iguala", disse ele.